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Hotelaria de Salvador (BA) em sinal de alerta

A capital baiana registrou em 2015 uma média de ocupação anual de 53%, a pior dos últimos quatro anos. Hoje, setor e Governo tentam se unir para fazer renascer um dos principais e mais tradicionais destinos turísticos do País

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Historicamente no mapa do turista brasileiro e estrangeiro, Salvador viu seus hotéis esvaziarem em 2015. Foto: Divulgação Salvador Destination

Enquanto 2014 foi um ano favorável para a hotelaria brasileira em virtude da Copa do Mundo no País, 2015 foi um ano para se esquecer – pelo menos em Salvador, a capital da Bahia. A cidade registrou no ano uma média de ocupação de 53,67%, inferior à média de 2014 (55,64%), 2013 (56,27%) e 2012 (58,76%). Ou seja, a pior dos últimos quatro anos, segundo dados da pesquisa Taxinfo realizada em parceria com a ABIH-BA – Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia.

A própria Copa do Mundo, que levou a cidade a investir em novos leitos, acabou sendo um dos motivos da queda na ocupação, já que seu público passageiro deixou quartos inutilizados após seu término. Para piorar, no mesmo período a cidade viu seu Centro de Convenções ser fechado por falta de reformas, resultando na redução do fluxo de turistas na capital que tinha forte potencial no turismo de negócios até então. Outros fatores como a derrubada de barracas de praia da orla e até a violência que assola a cidade e afastou novos turistas foram cruciais para levar a hotelaria de Salvador ao caos. Como consequência deste cenário, cerca de dez hotéis de pequeno porte fecharam na cidade, causando a demissão de centenas de funcionários e voltando a diminuir a oferta hoteleira local.

A Pesquisa revelou ainda que, das seis capitais que participam do levantamento, Salvador ocupou a quinta posição na taxa de ocupação hoteleira em dezembro último (52,23%) perdendo para Fortaleza (87,25%), Aracaju (69,49%), Maceió (67,03%) e Curitiba (58,11%). A diária média também representa o que foi a hotelaria na cidade em 2015. A média anual (R$ 225,89) ficou abaixo dos números do ano anterior (R$ 238,19), com Revpar anual de 121,67. Agora, a cidade tenta respirar após a alta ocupação registrada no Réveillon (média de 97,5%) e no Carnaval, e lentamente busca sua recuperação com a revitalização do destino.

Regata de canoas em Conceição de Salinas, no Recôncavo Baiano. Foto: Divulgação Salvador Destination
Regata de canoas em Conceição de Salinas, no Recôncavo Baiano. Foto: Divulgação Salvador Destination

Abandono
De acordo com Glicério Lemos, Presidente da ABIH-BA, a cidade de Salvador passou por um período de oito anos de má administração municipal, o que acabou tirando a capital do mapa turístico dos próprios brasileiros. Segundo ele, neste período, os grandes pontos turísticos da foram abandonados junto com a cidade. “A hotelaria de Salvador está passando por um momento difícil nestes últimos anos. O atual prefeito (Antonio Carlos de Magalhães Neto) está retomando este processo de investimento na cidade e na nova orla de Salvador, e isso está ajudando muito locais como o Farol da Barra e o Porto da Barra, que foram totalmente revitalizados, a praia de Itapuã e a orla da Boca do Rio. Também tivemos a recuperação do Rio Vermelho, a inauguração do Museu de Jorge Amado, estão sendo revitalizados monumentos históricos como o Forte de Santa Maria, na Barra e o Forte São Diogo, ao lado do Yacht Club da Bahia, entre outros monumentos que estão sendo revigorados. Então, Salvador está passando por um momento de recuperação”, afirma o executivo.

 Glicério Lemos – “Temos que trabalhar com foco e mudar o que está errado da Bahia como destino”
Glicério Lemos – “Temos que trabalhar com foco e mudar o que está errado da Bahia como destino”

Segundo ele, outro grande problema foi a ausência de Marketing. Lemos afirma que a Bahia deixou de fazer propaganda e de utilizar a mídia que possuía, então, o turismo baiano perdeu muito espaço, e outros destinos acabaram ocupando seu lugar. “Houve a ausência de investimento em um plano de ações. A hotelaria de salvador já faz sua parte, nós temos hoje uma diária média muito baixa, que está em décimo lugar, e é uma das mais baratas do País. Nosso preço já é bastante competitivo. Precisamos fazer propagandas, fazer as promoções em mercados importantes e emissores para Salvador como São Paulo, Minas Gerais e Paraná. É o nosso dever de casa urgente. Buscar novos caminhos e trabalhar muito. A própria revitalização da cidade está buscando isso”, completa.

Com uma baixa diária média e preços acessíveis para o turista, Salvador acaba perdendo público em outro quesito: alto preço das passagens aéreas. Para Lemos, o grande entrave do turismo nacional são as companhias aéreas que cobram preços altos para destinos competitivos como a Bahia. “Nós vamos procurar as companhias aéreas para ver o que se pode fazer, mas a ABIH enxerga isso como um grande problema. Além disso, o aeroporto precisa de reforma, precisa ser privatizado e é necessário aumentar a malha aérea para Salvador. O governo precisa abrir o espaço aéreo para outras companhias, pois são poucas empresas ditando o preço sem uma concorrência. Tendo a concorrência, o preço baixa. Nós estamos precisando disso”, declara Glicério Lemos.

Demissões e fechamentos
Em outubro de 2015, o Sindhotéis – Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares de Salvador e Região convocou trabalhadores para uma ação de repúdio às demissões de mais de 130 colaboradores no hotel Pestana do Rio Vermelho. Na época, a diretoria do Sindhotéis afirmou ter recebido várias denúncias dos trabalhadores do hotel sobre a contratação de pessoas com salários reduzidos ocupando as mesmas funções dos que foram demitidos. “O hotel está demitindo para reduzir salário e aumentar os lucros. Não tem como receber bem o turista com o serviço precarizado”, diz a nota da entidade em seu site.

A entidade destaca ainda que a qualificação do profissional, o salário, as condições de trabalho e a forma de contratação influenciam diretamente na qualidade do serviço. “No entanto, o hotel Pestana não está preocupado com o serviço prestado para o turista, visa somente o lucro. O Pestana não pode contratar novos funcionários e pagar um salário menor do que outro trabalhador que exerce a mesma função. Não vamos admitir essa falta de respeito com o trabalhador!”, completou a entidade no comunicado, que afirmou que sua diretoria já toma as medidas necessárias para resolver a questão. Com faixas, bandeira, carro de som e distribuição de informativos sobre o assunto, o sindicato alertou para a demissão em massa que ocorreu no hotel. Em janeiro deste ano, a rede divulgou um comunicado que manterá as atividades até o dia 29 de fevereiro de 2016, alegando necessidade de reformas.

Pelourinho, popular bairro de Salvador (BA). Foto: Divulgação Salvador Destination
Pelourinho, popular bairro de Salvador (BA). Foto: Divulgação Salvador Destination

De acordo com Silvio Pessoa, Presidente da Febha – Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação, somente no ano passado mais de 10 mil trabalhadores perderam o emprego em Salvador, os quais ainda não foram repostos. “Além do Centro de convenções fechado há mais de um ano e a obra do aeroporto não finalizada, a dotação orçamentária é insuficiente por parte do governo estadual, há falta de promoção no exterior por parte da Embratur, fazendo com que a crise atingisse todos os hotéis do Nordeste. Pequenos e grandes estão trabalhando no vermelho, pois não estamos atingindo o ponto de equilíbrio e muitos estão com situação de insolvência. Se não forem feitas campanhas sérias para público final, teremos um ano similar ou pior que 2015”, dispara.

O presidente da federação local aponta ainda problemas como “engessamento de Secretarias de Turismo, inoperância da Embratur , troca constante de Ministros do Turismo, falta de campanhas de público final e redução em investimentos em Workshops e road shows” como responsáveis pela diminuição da competitividade da capital baiana, principalmente perante outros destinos brasileiros que se sobrepuseram a Salvador nos últimos anos. Oferecendo ajuda, a Febha levou solicitações em conjunto com o CBTur para o Governo do Estado e Secretário de Turismo para tentar alavancar o destino. “Não devemos incentivar construções de novos hotéis sem estudo de viabilidade econômica, a exemplo do que ocorreu na Copa do Mundo. Representamos 7,5 do PIB no Estado e nossa dotação orçamentária para o turismo é somente 0,53% do orçamento estadual. Para melhorar esta situação, temos que ter gestores profissionais comprometidos com a atividade turística e conhecedores de causa”, pontua Pessoa.

Paulo Gaudenzi – “A cidade vem reestruturando seus serviços públicos depois de muitos anos de abandono que comprometeram o produto”
Paulo Gaudenzi – “A cidade vem reestruturando seus serviços públicos depois de muitos anos de abandono que comprometeram o produto”

Há esperança
Mesmo ciente da situação atual da hotelaria na cidade, o presidente da Salvador Destination (associação que promove a cidade) e ex-secretário de turismo da Bahia, Paulo Gaudenzi está otimista e aponta pontos positivos que podem renovar as esperanças dos hoteleiros da capital soteropolitana. “A cidade vem reestruturando seus serviços públicos e aumentando a oferta de produtos turísticos, depois de muitos anos de abandono que comprometeram o produto. Hoje, a orla marítima da cidade depois da sua requalificação, pode ser usada como área de recreação e lazer para baianos e visitantes”, aponta o presidente da entidade.

Gaudenzi aposta que a melhoria do fluxo de visitantes que aconteceu no mês de janeiro, nas férias escolares e réveillon, além do anúncio antecipado de sua grade de programação no Congresso da ABAV (Associação Brasileira das Agências de Viagens) ainda em setembro podem dar início a recuperação da cidade. “Desta forma, também esperamos que o Estado, como fez no mês de novembro de 2015, faça campanhas de mídia para o São João e novamente em outubro para o próximo verão. Esta mídia terá que contemplar as grandes redes de TVs em canal aberto, e completar com a maior urgência a reforma do Centro de Convenções iniciada há alguns meses”, opina o empresário, que afirmou que a previsão divulgada para conclusão da reforma do local é no mês de junho.

A Salvador Destination também espera que a Secretaria Estadual de Turismo inicie as obras do projeto aprovado pelo BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Prodetur Baía de Todos os Santos, no valor aproximado de US$ 85 milhões, e que foi assinado com o governo desde março de 2014, segundo Gaudenzi. “Este projeto virá a ser de grande valia para o desenvolvimento do turismo náutico em Salvador e demais cidades do Recôncavo Baiano”, explica.

A associação tem como meta, em 2016, trazer o máximo de eventos possíveis para a cidade com a participação em dez eventos do mercado MICE (Meetings, Incentives, Conferencing, Exhibition) e mais oito em disputas para levar médios congressos para Salvador. Enquanto o Centro de Convenções está fechado, a cidade só pode receber eventos de até 2.500 pessoas em alguns hotéis de grande porte da cidade ou eventualmente no estádio Fonte Nova. “Iniciaremos também este ano a nossa participação no mercado internacional, tanto para captar eventos como também para ampliar nossos relacionamentos que nos proporcionarão mais adiante conquista de mais eventos internacionais. Para melhor compreensão, nesses 17 meses de real trabalho no mercado, já conquistamos e/ou apoiamos cinco eventos realizados em 2015, e oito que já serão realizados nesse ano e mais sete que estão acertados para 2017. Além disso, temos uma relação de 23 congressos e convenções que estaremos disputando para os próximos anos”, conta Paulo Gaudenzi.

Todos pela Bahia
Para incentivar o turismo baiano, o Governo do Estado anunciou no final do ano passado uma medida que prevê a redução de 17 para 12% da alíquota do ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços na aquisição de querosene para aviação, para empresas que investirem em voos na Bahia. “A Bahia é a resposta para a alta do dólar e do euro”, afirma o governador, pensando nos turistas estrangeiros e brasileiros. Em reunião com o governador, representantes da Gol Linhas Aéreas, primeira empresa a aderir antecipadamente ao incentivo, se comprometeram a implantar dez frequências regulares de destinos diferentes do Brasil e um da Argentina, para Porto Seguro, além de voos diários de Congonhas para Salvador e Ilhéus, incrementando em cerca de 25 mil assentos mensais a disponibilidade para o estado.

O Presidente da ABIH-BA, Glicério Lemos, também afirmou que a entidade trabalha junto com o Governo e a prefeitura para desenvolver metas e estratégias que impulsionem o destino. A entidade quer estabelecer metas a curto prazo, como campanha para baixa estação e visitas a mercados emissores de turistas, para revitalizar a força que a Bahia sempre teve pra captar mais turistas para Salvador.  “Essa é nossa principal meta, porque nós temos que pagar nossas contas, nós temos que sair dessa fase difícil. Então nós temos que trabalhar, e trabalhar com foco, enxergando que o que foi feito até agora está errado. Mesmo assim, acredito no potencial da Bahia como destino. Temos grandes atrativos e vamos recuperar o tempo perdido”, declara.

No final de janeiro, a entidade hoteleira e a prefeitura traçaram um planejamento estratégico para o turismo de Salvador, visando reverter a baixa estação em 2016. Serão promovidos Road Shows nos principais polos emissivos de turistas para a capital baiana, como Rio de Janeiro e São Paulo, além de mercados no exterior, e que contarão com a presença do prefeito da cidade. “Estou disposto a fazer pelo turismo o que estiver ao alcance da prefeitura”, afirmou o prefeito ACM Neto.

Durante o encontro, foi criado um grupo de trabalho, liderado pela ABIH-BA e a Secult – Secretaria Municipal de Cultura e Turismo que irá definir datas e ações para os Road Shows, assim como o planejamento estratégico do turismo para Salvador no biênio 2016/2017. “Estamos muito satisfeitos de ter a oportunidade de discutir com a prefeitura o destino Salvador e pelo prefeito aceitar participar dos eventos de promoção. Isso mostra a sensibilidade do nosso gestor com o turismo da cidade, que movimenta a economia e gera milhares de empregos”, destacou o presidente da ABIH-BA.

O prefeito também decidiu que vai programar eventos de trabalho da administração municipal em hotéis da cidade,  distribuídos nos polos Itapuã/Stella Maris, Pituba/Tancredo Neves, Centro/Pelourinho e Barra/Rio Vermelho. O objetivo é conhecer a estrutura e o problema da hotelaria nessas regiões. Um mapa ilustrativo dos destinos turísticos da capital, presenteado ao prefeito pela ABIH-BA, será transformado em folheteria de divulgação, de acordo com o secretário da Secult, Érico Mendonça, que participou do encontro realizado no gabinete do prefeito.

Já a Febha, enviou ao governador do estado, ainda em 2014, uma carta que constavam cerca de 25 sugestões para colaborar com o turismo baiano, entre elas, realizar adensamentos da Cadeia Produtiva do turismo com estímulos fortes à Produção Associada ao Turismo (artesanato, gastronomia, serviços, arranjos produtivos locais em torno do turismo religioso, do chocolate, do vinho, da cachaça e dos produtos juninos) e manutenção, consolidação e ampliação do Observatório do Turismo como um poderoso instrumento de pesquisa e planejamento.

Centro Histórico Foto: Tatiana Azeviche-Setur
Centro Histórico Foto: Tatiana Azeviche-Setur

10 mil turistas em 2016
Nos dois últimos dias do mês de janeiro, a capital da Bahia recebeu 1,2 mil franqueados e vendedores da operadora CVC para aumentar a venda de pacotes para a cidade. Paulo Gaudenzi estima um incremento de 10 mil turistas ao longo de 2016, um aumento de 20% nas vendas locais da operadora que comercializa anualmente mais de 120 mil pacotes turísticos para Salvador e Litoral Norte. Os agentes participaram da Convenção Anual de Vendas da CVC, que aconteceu de 31 de janeiro a 2 de fevereiro em Sauípe. Nos dias 30 e 31 de janeiro, franqueados e vendedores participam em Salvador de um famtour, numa ação de marketing que reuniu esforços da Prefeitura Municipal, a Salvador Destination, com seus associados hoteleiros, a empresa de receptivo Grou Turismo e a Viação Águia Branca.

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2 COMENTÁRIO

  1. Muitas belas iniciativas para revitalizar e incentivar o turismo. Mas nós, hoteleiros, principalmente do Pelourinho, vivemos o cotidiano da insegurança, roubos, assaltos, flanelinhas, ambulantes e taxistas extorquindo os turistas. Isto se espalha no país e no mundo, e é a imagem da Salvador que acaba sofrendo. Nenhum esforço, nenhuma iniciativa serão bem sucedidos sem SEGURANÇA, é a base do turismo, ninguém quer se deslocar para um destino perigoso.

  2. O Hotel Villa Bahia tem razão em sua colocação – SEGURANÇA é primordial e é sabido Internacional e Nacionalmente que Salvador em termos de Segurança é um verdadeiro descalabro, mas o RJ é Pior…
    O matéria diz que os Hotéis fecharam com 53% de Ocupação ou 52% é indiferente, Hotéis operam no seu ponto de equilíbrio com 29,7 a 33,2% – nós não operamos com menos de 34,9% dificilmente nosso ponto de equilíbrio passa disso e se passa anualmente jamais. – Estes números não servem para os condo hotéis, da moda.
    Isto posto a reclamação de prejuízo demonstra em um primeiro momento má gestão ou na maioria dos casos falta dela. Já que sabemos de redes em Salvador que cresceram durante a crise e continuam crescendo.
    As reclamações dos empresários em parte, e só em parte são pertinentes, já que tudo o que aconteceu em Salvador era previsto, então pergunta-se: Porque nada foi feito de prático para enfrentar esses problemas? e o que foi – era pouco.
    O que Salvador tem Hoje é uma falta de Gestão Hoteleira praticamente generalizada e junte-se a isto o ser muito mais fácil arranjar desculpas do que tomar posições. O Assunto Pestana é uma vergonha que desmerece qualquer comentário.

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