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Cresce adesão na hotelaria ao mercado livre de energia limpa

O ambiente de contratação livre oferece flexibilidade para negociar preços, contratos, fornecedores e escolher as fontes de energia

A crescente conscientização ambiental tem impulsionado mudanças significativas em diversos setores, e a hotelaria não fica para trás. Os hotéis desempenham um papel crucial na indústria do turismo e, como tal, têm a oportunidade de liderar iniciativas sustentáveis. Uma das opções que cada vez mais tem ganhado força é a transição para comercialização livre de energia. Adotar essa iniciativa é uma estratégia eficaz para reduzir a pegada de carbono e melhorar a responsabilidade ambiental.

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Entre as opções de fontes de energia livre e limpa estão a solar, captada por meios de painéis solares e usinas fotovoltaicas; eólica, gerada pela força do vento capturada por turbinas eólicas; biomassa, obtida a partir de materiais orgânicos, como resíduos agrícolas ou florestais; e geotérmica, energia proveniente do calor interno da Terra. Além da questão ambiental, a livre comercialização de energia também envolve questões de democratização e redução das tarifas de energia elétrica. O mercado livre de energia elétrica, ou ACL – Ambiente de Contratação Livre, é o ambiente em que os consumidores podem escolher livremente seus fornecedores de energia. Nessa modalidade de compra os clientes negociam energia elétrica e têm liberdade para discutir preço, quantidade a ser adquirida, período de fornecimento e condições de pagamento. O mercado livre de energia não é uma novidade, mas por muito tempo foi restrito para grandes indústrias, como a metalúrgica, por exemplo. Isso porque as regras para comercialização de energia só eram aplicáveis para quem tivesse demanda acima de 1.000 quilowatts (kW) ou 500 kW. Em 2022, o governo federal publicou uma portaria permitindo que todos os consumidores ligados em alta tensão pudessem entrar no mercado livre, o que beneficiou diversos tipos de negócios. Redes hoteleiras, como o Grupo Tauá e Bourbon Hotéis e Resorts e hotéis de grande porte como o Le Canton e o Unique já aderiram ao mercado livre de energia. Porém a partir de janeiro de 2024 pequenas e médias empresas que utilizam média e alta tensão e fazem parte do chamado grupo A (indústrias e comércios que usam voltagem acima de 2,3 kV) poderão migrar para o mercado livre de energia, independentemente da demanda contratada e economizar até 35% na conta de luz. Essa ampliação vai beneficiar pousadas e pequenos hotéis que hoje ainda são atendidos no ambiente de contratação regulada, como a maioria dos clientes.

Mercado livre e o mercado cativo

Atualmente o mercado de energia pode ser dividido em dois segmentos distintos: o mercado livre e o mercado cativo. As principais diferenças entre eles envolvem a escolha do consumidor, a forma como os contratos são estabelecidos e as opções disponíveis em termos de fornecedores e preços.

A opção tradicional da maioria dos consumidores está restrita a adquirir energia elétrica no ACR – Ambiente de Contratação Regulada. Trata-se de contratação exclusiva e compulsória dessa energia da distribuidora da região em que estão. As tarifas pelo consumo da energia são fixadas pela ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica e não podem ser negociadas. No mercado cativo há pouca ou nenhuma margem de negociação para os consumidores, os contratos frequentemente são padronizados, com menos flexibilidade em termos de negociação de preços, prazos e fontes de energia.

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No mercado livre, os consumidores têm a liberdade de escolher seus fornecedores de energia, permitindo uma concorrência mais ampla. Além disso, podem negociar contratos personalizados com fornecedores de energia, incluindo preços, fontes de energia específicas como solar, eólica, hidrelétrica, etc., para atender a objetivos de sustentabilidade e condições contratuais. Os preços são influenciados pela oferta e demanda, permitindo maior competição e a possibilidade de obter preços mais competitivos. A entrada no mercado de energia livre é feita através das gestoras e comercializadoras de energia, que precisam ter autorização da ANEEL e registro na CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Segundo a norma recentemente aprovada, os consumidores com carga individual inferiores a 500 kW que migrarem a partir de 1º de janeiro de 2024 deverão ser representados por um agente varejista perante a CCEE.

A Rede Bourbon, uma das pioneiras no uso de energia limpa, está engajada em avançar de forma irreversível no tema da sustentabilidade. Os primeiros hotéis da rede migraram em meados de 2017 e hoje, entre a rede direta da Bourbon e redes parceiras conveniadas, o grupo tem oito unidades migradas no mercado livre, quatro unidades em processo de migração na modalidade varejista (modelo novo, proveniente da recente abertura de mercado a qualquer unidade ligada em média tensão), e outras unidades com processo avançado de avaliação dos modelos para migração. Hoje, todas as unidades da rede que são aderidas ao mercado livre de energia adquirem energia de fontes incentivadas, provenientes de empreendimentos de geração de fontes eólicas, solares, ou empreendimentos hídricos de baixo impacto ambiental. Além disso, a rede adquiriu certificados I-REC (Certificado de Energia Renovável) para grande parte das suas unidades a partir de 2022 até 2026, com o intuito de obter a rastreabilidade da fonte geradora de sua energia, e assim, zerar as emissões de gases de efeito estufa do Escopo 2 de emissões previstos pelo GHG Protocol. Atualmente tem sido usada pelo menos três fontes de energia principais: hidroelétrica, eólica e solar. André Okamura, Head de Patrimônio da Bourbon Hospitalidade, destaca entre os principais benefícios a economia financeira. “Os custos para quem segue no mercado regulado segue uma curva de crescimento anual que, no mercado livre, é possível de ser atenuada com uma boa estratégia de contratação junto à sua gestora, além dos benefícios de descontos em algumas faturas de distribuição disponíveis a quem adere a fontes alternativas. Com o suporte da Comerc Energia como nossa gestora no mercado livre, nossas unidades já economizaram mais de R$ 17 milhões frente ao custo cativo, e com o atual momento de mercado, de baixa de preços e a possibilidade de migração de unidades menores no modelo varejista, estamos vislumbrando um aumento ainda mais significativo destes resultados nos próximos anos”.

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Isis Batista: “Os custos iniciais geralmente são menores, pois a empresa não precisa investir em infraestrutura de geração própria” (Foto – Divulgação)

Desde janeiro de 2023 o Grupo Tauá utiliza Energia Incentivada I5, proveniente de fontes renováveis e certificadas pelo CEMIG-REC, que é um Certificado de Energia Renovável com rastreabilidade e que atende aos protocolos requeridos pelas empresas: GHG Protocol, LEED, CDP entre outros. Este Certificado possui controle rastreável e auditável como o I-REC.  O CEMIG-REC tem reconhecimento nacional e apresenta custos vantajosos em relação ao I-REC. Para Isis Batista, Gerente de ESG e SSO do Grupo Tauá de Hotéis e Resorts, os principais benefícios dessa escolha são: migração simplificada, flexibilidade contratual, adaptação ao mercado, menor incidência tributária, pagamento somente pelo o que é consumido e como ponto forte, a economia de gastos. “Os custos iniciais geralmente são menores, pois a empresa não precisa investir em infraestrutura de geração própria”, enfatiza Isis. E completa: “Dentro desse ambiente livre de contratação, toda energia pode ser adquirida diretamente do fornecedor, o que torna o preço mais competitivo e atrativo para nós. Quando comparado ao mercado cativo, uma compra no mercado livre de energia pode gerar até 30% de economia na conta de luz. Segundo a ANEEL, os preços para aquisição de energia elétrica foram, em média, 49% menores no ano passado em relação ao preço médio praticado no mercado cativo”.

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A 2W Ecobank, comercializadora no ambiente de energia livre, focada em pequenas e médias empresas, conta com dois parques eólicos, o Projeto Eólico Anemus, inaugurado no último mês de outubro está localizado nos municípios de Currais Novos e São Vicente, no Rio Grande do Norte, tem capacidade de 138,6 MW, e o Projeto Eólico Kairós, em Icapuí, no Ceará, que terá capacidade de 261 MW, está em construção e deve entrar em operação no primeiro trimestre de 2024. A empresa tem expandido o número de clientes na região Nordeste. Em Alagoas recentemente três redes de hotéis aderiram ao mercado livre de energia através da comercializadora. Além da economia financeira para os empreendimentos, cerca de 400 toneladas de CO² deixaram de ser emitidas na natureza. “A migração para o mercado livre de energia representa uma grande oportunidade para cerca de 23 mil consumidores na região Nordeste que antes estavam restritos ao mercado cativo. A 2W Ecobank chega aonde ninguém mais chega no Brasil. Estamos presentes em todos os Estados, não apenas nas capitais, mas também no interior de cada um desses estados nordestinos”, afirma Rodrigo Silveira, Head de Desenvolvimento de negócios na região Nordeste. A empresa oferece soluções de energia com interface digital, telemetria, eficiência energética e serviços financeiros, conectando energia, finanças e sustentabilidade, e mais do que energia, leva informação sobre o tema para ajudar a sociedade a alcançar um consumo mais consciente, limpo e inteligente.

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Rodrigo Silveira: “A 2W Ecobank está presente não apenas nas capitais, mas também no interior de cada um desses Estados nordestinos” (Foto – Divulgação)
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Energia fotovoltaica

Em 2022 houve mudanças na geração de energia solar com a aprovação de Projetos de Lei que regulamentam a geração e distribuição de energia fotovoltaica. A regulamentação que fez que muitos que optaram pela instalação de placas solares reavaliassem a viabilidade dessa opção.

Em janeiro de 2022 foi sancionada a Lei nº 14.300/22 conhecida como o Marco Legal da Microgeração e Minigeração Distribuída, que prevê a aplicação de uma taxa para quem gera energia solar. Antes da lei havia isenção ao pagamento do Fio B, que compõe a TUSD – Tarifa de Uso dos Sistemas de Distribuição. A partir de 2023, quem gerar energia solar terá que pagar pelo uso da infraestrutura disponibilizada pela distribuidora.

 

Ygor Garcez, Gerente de Engenharia e Daniel Martins, Gerente de Sustentabilidade, do Unique Garden, fizeram uma análise sobre os custos relativos ao tipo de energia utilizada no hotel. “Para entendermos sobre a diferença entre impacto e retorno destas modalidades realizamos um estudo comparativo, onde ao final concluímos que para o cenário de consumo de energia do hotel a implantação de usina fotovoltaica exigia um valor de investimento inicial alto e retorno em aproximadamente dez anos. Em contrapartida, a migração para o mercado livre exigiu um baixo investimento inicial e redução, logo no primeiro mês, de aproximadamente 25% se comparado ao valor que pagávamos com o mercado cativo. Obviamente esse estudo foi realizado considerando as particularidades deste empreendimento. Entendemos que a implantação de usinas fotovoltaicas seja o caminho mais natural para a geração de energia limpa. Mas considerando que para a implantação de uma usina fotovoltaica há a necessidade de um grande espaço disponível para esse fim, a compra de energia limpa parece ser a opção mais viável para o setor hoteleiro. Grande parte dos hotéis estão dentro de centros urbanos, onde para a implantação seria necessário locar um terreno em outra região, o que aumenta o custo ou até inviabiliza a opção de geração própria de energia”.

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Ygor Garcez, Gerente de Engenharia e Daniel Martins, Gerente de sustentabilidade, do Unique Garden (Foto – Divulgação)

André Okamura acredita que a energia solar está em um momento crítico de viabilidade, dado ao seu custo produtivo, riscos geopolíticos, transições tecnológicas que podem trazer uma obsolescência antecipada e visão regulatória nacional com um grau alto de incertezas. “Para unidades consumidoras no mercado livre, nos moldes atuais, é economicamente inviável o investimento em painéis solares, pelo menos para atendimento de volumes altos do seu consumo. Estamos em um dos menores cenários de preços do mercado nos últimos 15 anos, e com a sobreoferta atual de energia no Brasil, fruto do aumento substancial dos parques de geração ao mesmo tempo em que o Brasil tem uma estagnação do seu nível de consumo, é provável que esse preço siga em patamares atrativos nos próximos anos. Dessa forma, o payback de um investimento solar tem estado na faixa de 16 a 20 anos para um consumidor livre, isso quando não há uma necessidade de obra significativa junto à rede, que inviabiliza totalmente o projeto”.

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O executivo ressalta que, em geral, as empresas que trabalham com instalação de painéis solares costumam comparar com os custos cativos e projetam um crescimento da tarifa anual. “No mercado livre, as tarifas não seguem essa lógica. A própria Bourbon terá entre 2024 e 2026 uma tarifa substancialmente menor que a de 2023, mesmo a de 2023 sendo bastante menor do que a tarifa regulada. Esses pormenores fazem toda a diferença ao avaliar economicamente o projeto”. Outro ponto importante é a previsibilidade de custos que o mercado livre de energia oferece. “Boa parte dos custos deixam de ficar à mercê dos reajustes do mercado regulado, e os contratos de energia podem ser firmados para períodos longos, permitindo que você saiba quanto esse custo representará para seu hotel em cada ano”. O executivo ainda frisa além da questão econômica, a preocupação ambiental é outro fator importante na aquisição de energia no mercado livre. “Para quem busca o apelo sustentável, uma alternativa é fazer a instalação para atendimento de cargas pequenas, que possam ser “off-grid”. No entanto, existem algumas práticas alternativas, como a compra dos I-REC’s, que são economicamente muito mais baratas e atrativas e que atendem às diretrizes internacionais de neutralização de emissões de carbono, permitindo avançar na sustentabilidade de forma viável. Além disso, no mercado livre você pode unir economia à adesão de fontes limpas de energia, que costumam ser inclusive as mais rentáveis no aspecto econômico. Tudo isso torna, ao final das contas, o seu empreendimento mais atrativo e competitivo no mercado”, argumenta, Okamura.

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Energia eólica é uma das fontes de energia limpa que pode ser comercializada (Foto – photoangel para Freepik)
Energia limpa e sustentabilidade

Mônica Paixão, CEO do Le Canton, explica que a ecoeficiência é um dos pilares do projeto “Le Canton do Futuro”, que reúne todas as ações e objetivos relacionados à sustentabilidade, assim como a busca por mitigação de impactos ambientais. Através dele, o tema está presente de maneira permanente no planejamento estratégico, e anualmente diversas ações são implantadas. “Além da utilização de pellets de madeira, que é um biocombustível sólido renovável produzido a partir dos subprodutos da madeira, para aquecimento de toda a água do resort, compramos 100% de nossa energia elétrica, produzida a partir de fontes renováveis, como eólica, solar, etc.”, afirma Mônica. O Le Canton, desde janeiro de 2022, participa do mercado livre de energia e já tem energia contratada até dezembro de 2025. Mônica ainda destaca que em relação ao investimento na geração fotovoltaica, isso depende muito do perfil de consumo, da capacidade de investimento e do payback esperado. “Em relação ao Le Canton, temos estudos em andamento, relacionados a gerar parte de nossa necessidade, via energia solar”.

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Mônica Paixão: “Compramos 100% de nossa energia elétrica produzida a partir de fontes renováveis, como eólica, solar, etc.” (Foto – Divulgação)

Isis Batista do Tauá afirma que a eficiência energética está em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), protocolados pela ONU, relacionados a produção de energia limpa e a preservação do meio ambiente, como o ODS 7 de energia acessível e limpa e ODS 13 de ação global contra a mudança do clima. “A compra de energia limpa no mercado livre é uma maneira eficaz da hotelaria contribuir para a transição para um sistema energético mais sustentável, apoiando projetos de geração de energia renovável e incentivando a redução das emissões de gases de efeito estufa”.

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O Hotel Unique, ícone arquitetônico na paisagem paulistana, além de ser referência em relação a arte, design, moda e gastronomia, também investe na questão ambiental. “Estamos estudando opções no mercado e atualizando nossas máquinas e equipamentos, um exemplo do que vem sendo estudado é alterar nossa matriz energética do aquecimento de água tradicional, gás natural (GN), para bombas de calor. Este equipamento utiliza fontes de energia renováveis, que será obtido através do mercado livre e utilizam-nas também para condicionar ambientes e otimizar as operações através do aquecimento de água em quartos e piscinas. Esta medida não só reduz significativamente o consumo de gás natural, como também ajuda a reduzir as emissões de CO2 e está alinhada com os objetivos globais de sustentabilidade”, explica Isabel Soares, Gerente de Qualidade.

Mateus Rosa, Gerente de manutenção, complementa: “O Hotel Unique tem analisado no mercado opções para reduzir o consumo de energia, melhorar a eficiência de equipamentos e processos e aumentar a utilização de fontes de energia renováveis. Esta medida reduz de forma expressiva o consumo de gás natural, uma fonte de energia não renovável, e consequentemente as emissões de gases de efeito estufa. A iniciativa corrobora com nosso compromisso de contribuir para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) além de ser uma estratégia com foco econômico”.

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Mateus Rosa: “O Hotel Unique tem analisado no mercado opções para reduzir o consumo de energia e aumentar a utilização de fontes de energia renováveis” (Foto – Divulgação)

O hotel iniciou a migração para o mercado livre de energia no segundo semestre de 2023 e agora em dezembro completa adesão ao ACL – ambiente de comercialização livre. “O mercado livre nos permitirá escolher a empresa da qual a energia será adquirida, participação de todo o processo de negociação, como valores, consumo, prazo, fonte da energia etc. Desta forma, garante-se a otimização de custos, previsibilidade orçamentária, transparência e segurança nas operações e consumo de energia limpa e renovável”, afirma Mateus. “Além de ser uma ação efetiva para descarbonização, a migração para o mercado livre possibilita economia significativa em relação ao Ambiente de Contratação Regulada – ACR, quando as estratégias são bem definidas e as tomadas de decisões realizadas nos momentos oportunos. Ainda existe a vantagem de ter acesso as fontes de geração de energia limpa sem despender de alto investimento, o que seria necessário em projetos de autoprodução solar”, complementa Isabel.

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Isabel Soares: “Além de ser uma ação efetiva para descarbonização, a migração para o mercado livre possibilita economia significativa em relação ao Ambiente de Contratação Regulada” (Foto – Divulgação)
Tendências para o futuro

Cada vez mais engajados nas questões ESG, planejando um futuro mais sustentável, a adoção de energia limpa na hotelaria não é apenas uma tendência, mas uma necessidade urgente em face das crescentes preocupações ambientais. Ao abraçar essa mudança, os hotéis se posicionam como líderes na indústria, contribuindo para um futuro mais verde e consciente.

Para Isis Batista, a compra de energia, especialmente proveniente de fontes renováveis, é uma tendência crescente na hotelaria devido à crescente conscientização ambiental dos hóspedes, pressões regulatórias favoráveis e a busca por eficiência financeira a longo prazo. “Hotéis que adotam práticas sustentáveis, como a compra de energia limpa, não apenas atendem às expectativas dos clientes modernos, mas também fortalecem suas reputações de marca e respondem às demandas de um mercado cada vez mais voltado para a sustentabilidade. Com o avanço da tecnologia e a oferta de incentivos governamentais, a perspectiva é de que mais hotéis busquem a transição para fontes de energia mais limpas, contribuindo para a redução da pegada de carbono e promovendo uma indústria hoteleira mais sustentável no futuro”, finaliza.

De acordo com André Okamura com a abertura de mercado, existe um universo estimado de mais de 90 mil unidades consumidoras no país com potencial de migração, e certamente existem muitos hotéis que podem se beneficiar desta oportunidade. Para ele, a abertura do mercado é uma tendência de todo o país, e certamente será uma realidade para os hotéis de todo o Brasil. Para André a discussão sobre matrizes de energia deve ser ampliada. “Quando falamos de energia, sugiro ampliar a discussão sobre o tema, pois muitas vezes nos restringimos apenas a eletricidade. Acreditamos que uma diversificação de matriz é algo ainda mais estratégico e sendo o mercado livre uma das peças fundamentais desse quebra-cabeça de gestão de energias. Em nossas unidades, temos essa visão diversa da matriz e elas estão sendo preparadas aos poucos para se adaptar às diversas realidades que possam vir a acontecer”.

Para que os hotéis adotem as melhores práticas tanto em relação às questões ambientais, quanto as questões econômicas é preciso planejamento, investimento em equipes qualificadas e se manter atento ao mercado e a legislação.  “Quanto ao mercado livre, apesar de extremamente lucrativo, ele exige conhecimento interno e o suporte técnico de uma parceira especializada. A regulação de mercado se transforma constantemente, sendo importante que os hotéis entendam as diferenças de modelos e a viabilidade econômica da migração em cada cenário, antes da tomada de decisão”, conclui Okamura.

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André Okamura: “A diversificação de matriz é algo estratégico e o mercado livre uma das peças fundamentais desse quebra-cabeça de gestão de energias”. (Foto – Divulgação)
Potencial do mercado brasileiro

E se depender do potencial de energia limpa que o Brasil apresenta, o segmento crescerá ainda mais. E quem avalia isso é Carlos Eduardo Oliveira, Engenheiro Mecânico, especialista em Energias Renováveis, Eficiência Energética e Geração distribuída pela USP-SP, Fundador da Renova Consultoria, Engenharia e Treinamentos, focada em energia renovável a partir de biomassas, biogás e resíduos sólidos urbanos. “O Brasil é líder mundial na utilização de energias limpas e possui uma ampla gama de fontes, sendo as principais: Hidrelétrica, Biomassa de cana-açúcar para geração termelétrica, Biomassa de florestas de eucalipto para geração de vapor e/ou termelétrica, Etanol anidro e hidratado oriundos da cana-de-açúcar e recentemente do milho, Solar fotovoltaica / solar térmico, Eólica e Biogás e biometano proveniente de processos agroindustriais e aterros urbanos. Um fato importante e benéfico para nós brasileiros é que entre 2021 e 2022, por conta do regime pluvial diferenciado e da ampliação da capacidade de geração de plantas eólicas e fotovoltaicas instaladas, o Brasil reduziu em 51,6% o uso de gás natural para a geração de energia elétrica. Houve 59,3% a menos na utilização de derivados de petróleo. Isto indica que estamos no caminho correto da descarbonização e continuaremos sendo alvo de muitos investimentos nesta cadeia. Ainda temos muito espaço para ampliar esses números que já são muito melhores do que o benchmarinkg mundial, porém enfrentamos sérios gargalos logísticos e técnicos com falta de mão de obra qualificada para suprir toda esta demanda por novos empreendimentos”, lembra Carlos Eduardo.

Ele destaca que para os próximos anos a tendência é que as fontes renováveis ganhem cada vez mais importância e espaço dentro do cenário energético brasileiro e mundial. “Eu costumo dizer que o futuro da energia com certeza será o do “E” e não do “OU”, ou seja, será híbrido, alimentado pelo sol e vento, suportado pela biomassa em grandes sistemas de cogeração de energia no setor do agronegócio e com baterias nos centros urbanos. A geração de energia distribuída nos permitirá escolher de qual fonte compraremos energia originalmente e, sendo assim, o grande desafio da ONS – Operador Nacional do Sistema será manter a estabilidade do sistema elétrico do país com diversas fontes injetando energia ao mesmo tempo”, analisa Carlos Eduardo.

Relatório coordenado pelo Ministério das Minas e Energia e da Empresa de Pesquisa Energética mostrando a atual matriz energética brasileira (Foto – Divulgação)

Em relação ao setor hoteleiro, ele enxerga muitas oportunidades em duas vertentes, sendo: a primeira o ganho financeiro de mudança de compra de energia, onde grandes grupos já têm buscado a compra no mercado livre de energia, que pela sua característica de menor regulação e menos burocrática, permite ao cliente a alternância de fornecedores de energia gerando concorrência e consequentemente economia em sua fatura de energia. “Este é o ponto de partida em minha visão do cenário para o setor de serviços com algumas mudanças legislativas que ocorreram nos últimos dois anos, facilitando o acesso de diversos clientes ao mercado livre de energia.  A segunda linha de trabalho para o setor hoteleiro se divide em dois segmentos distintos que tem a ver com ganho de eficiência e ampliação dos serviços aos hóspedes. Quando falo em ganho de eficiência, temos muito a fazer na maioria dos estabelecimentos do Brasil, com melhorias no uso do ar-condicionado, sistemas de iluminação, sistemas de aquecimento central. É notória a diferença das temperaturas no Brasil, vide o calor que enfrentamos em 2023, e quem trabalha no setor hoteleiro sabe que um dos custos mais importantes está na utilização dos sistemas de ar-condicionado, que individualmente é o maior consumidor em um hotel. No que tange a ampliação dos serviços aos hóspedes, é fato que a procura por estabelecimentos que tenham recarga para veículos elétricos só irá aumentar e com certeza este serviço será um diferencial. Um ponto que proponho a pensar é que hoje temos somente um, dois ou três veículos elétricos em alguns hotéis, mas e quando um local com 200 vagas de estacionamento tiver metade da frota estacionada ao mesmo tempo, ávida por recarregar as baterias para voltar de viagem, como resolveremos este tema?”, questionou Carlos Eduardo.

Cresce adesão na hotelaria ao mercado livre de energia limpa
Carlos Eduardo Oliveira: “Oferecer pontos de recarga de energia limpa aos veículos dos hóspedes poderá ser um grande diferencial competitivo nos hotéis” (Foto – Divulgação)
Vantagens competitivas para os hotéis

Segundo ele, a capacidade de um empreendimento receber veículos eletrificados e permitir que eles sejam recarregados para seguir viagem, será com certeza um fator decisório na escolha do hotel. “E este poderá ser um ponto de inflexão no setor em breve, dadas a dificuldades de implantação de sistemas novos de carregamento em hotéis com infraestrutura elétrica ainda inadequada. Também analisando perfil de consumidores, entendo que existirá uma grande leva de clientes que deverão estar inclinados a se hospedarem em locais com maior nível de sustentabilidade, usando isto como fator decisório, assim como hoje já são considerados espaços pet friendly e com cardápios veganos incluídos em seus restaurantes. A prática do setor de incentivar o uso de toalhas por mais de um dia, pedir para que hóspedes economizem água, dentre outros apelos ecológicos que já conhecemos, não serão suficientes para esta nova era de mudanças abruptas e tecnológicas que estamos experimentando. A implantação de sistemas solares fotovoltaicos em hotéis já é uma prática comum, mas entendemos que ainda existe espaço para ser ampliada aproveitando a redução de custo com energia elétrica que sabidamente é um fator chave na gestão de grandes empreendimentos. Em escala menor, já presenciei hotéis que possuem sistemas de biodigestão para os restos de cozinha e restaurantes que garantem além de uma destinação correta da parcela orgânica dos resíduos, ainda geram biogás que substituem fontes fósseis como o GLP, por exemplo.  Os restos dos biodigestores também proporcionam adubo orgânico que permitem o cultivo de hortas e produção de alimentos de forma sustentável. Este nicho de mercado, também entendemos como uma virada de chave no consumo hoteleiro que pode estar por vir. Enfim, entendemos que existem ainda muitas oportunidades de retrofits que garantam melhor uso do espaço, com maior eficiência energética (menor uso de energia para o mesmo serviço), e com uma visão mais alinhada com os três R´s da sustentabilidade: reduzir, reutilizar, reciclar”, concluiu Carlos Eduardo.

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Denise Bertola

Denise Bertola - Repórter

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