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Reciclar sobras de sabonetes como prática sustentável nos hotéis

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A sobra de um pequeno pedaço de sabonete deixado no banheiro de um hotel pode fazer a diferença na vida de milhares de pessoas que morrem diariamente no mundo por doenças infecto-contagiosas pelo simples fato de não lavarem às mãos

 

Quando você se hospeda num hotel e ao tomar um banho, na maioria das vezes sobra-se sabonete, mesmo que alguns meios de hospedagens insistam cada vez mais em ofececer aos hóspedes um tamanho cada vez menor, constituindo-se na famigerada economia burra. Você já parou para pensar o que os hotéis fazem com esta sobra? Será que existe alguma preocupação dos hotéis brasileiros em reciclar este material ou ele é jogado no lixo comum de forma indiscriminada? Se você não sabe, uma simples lavagem das mãos com sabonete é uma das formas mais eficazes e baratas de higiene para prevenir doenças como diarréias e pneumonia. Juntas são responsáveis por mais de 3,5 milhões de mortes de crianças todos os anos segundo dados da OMS – Organização Mundial da Saúde. Então a sobra de seu sabonete num hotel pode fazer a diferença de quem vive e de quem morre em vários cantos do planeta.

 

Preocupados com este quadro que se agrava a cada dia mais, as ONGs norte-americanas Clean The World e Global Soap Project, desenvolveram um programa de reciclagem de sabonetes em barra que são reconhecidos nos hotéis e passam por três fases: primeiro coletar, separar e esterilizar, depois reprocessar e, finalmente, voltar a moldar o sabão, transformando-o em novas barras. Após estes processos os novos sabonetes são enviados para uso doméstico de comunidades carentes de El Salvador, Nicarágua, Zimbábue, Mongólia, Uganda, Honduras, Mali, Romênia, Bangladesh, Afeganistão, Sudão e entre outros.

 

Desde sua fundação em 2009, a Clean The World impediu que mais de 500 mil quilos de produtos de higiene fossem parar em aterros, e distribuiu mais de 9 milhões de barras de sabonete, 2 milhões delas para o Haiti, em 2010, depois do terremoto e do surto de cólera naquele País. Já a Global Soap Project fundada por um ex-refugiado da Uganda, trabalha com mais de 300 hotéis e já despachou mais de 25 toneladas de sabão para campos de refugiados e outras comunidades pobres, expostas às doenças associadas à falta de higiene como a Suazilândia na África. A proposta das entidades é diminuir a disseminação de doenças infecto-contagiosas que assolam populações de diversos países.

 

Norteiam as seguintes perguntas para o hoteleiro: Será que no Brasil existe algum projeto desta magnitude? Como posso implantar este sistema de reciclagem no meu hotel? Quantas crianças principalmente das regiões Norte e Nordeste do País poderiam ser salvas com esta prática sustentável? Quantas toneladas de restos de barras de sabonetes são enviadas para o lixo comum no Brasil? Sendo que somente nos Estados Unidos são descartadas diariamente pelos hotéis 2,6 milhões destes produtos.

 

Reciclagem de sabonetes não é regulamentada no País
Se reciclar sobras de sabonete é uma prática muito comum em vários paises do mundo, no Brasil é ainda desconhecida por muitos hoteleiros e para “contribuir” não é regulamentada pela Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “Conforme suas normativas, é proibida a reciclagem destes produtos devido a fatores técnicos de higiene e proliferação bacteriana. Somente as embalagens dos mesmos podem ser recicladas, isto é valido para empresas e ONGs coletoras deste tipo de material. Já a indústria de cosméticos é proibida de coletar frascos usados, pela Anvisa, por questões técnicas”, frisa o Consultor em hotelaria Mario Cezar Nogales.

 

Para piorar a situação, a agência reguladora cita que estas sobras de sabonetes não podem ser utilizados nem para a lavagem de animais, pois estão impregnados por bactérias humanas. Shampoos, condicionadores e afins contém em suas composições químicas derivados do petróleo, que são impossíveis de reciclar para outro produto pelos mesmos motivos do sabonete.

 

Segundo Nogales, uma alternativa para esta questão socioambiental nos hotéis é utilizar amenities livres de parabenos (parabenos é um derivado do petróleo e conservante para shampoos) ou produtos 100% naturais. “Conheço apenas uma indústria cosmética para hotelaria que já disponibiliza este tipo de produto para os hotéis em toda a América latina, é a Harus Amenities. Nem mesmo a Natura disponibiliza este tipo de produto atualmente”, conclui.

 

Hotel paulistano investe em ações socioambientais
O hotel Grand Hyatt São Paulo, que comemorou 10 anos de existência no mês de agosto, é um dos poucos hotéis no Brasil que está engajado nesta prática sustentável de reciclar as sobras de sabonetes de 80 gramas disponibilizadas aos hóspedes. “Consideramos esta ação uma responsabilidade socioambiental muito importante, pois descartamos algo que ocuparia muito espaço em nossos depósitos e conseguimos dar o destino correto. No qual as sobras são reutilizadas para outros propósitos”, afirma Tânia Lopes, Gerente de Governança do hotel Grand Hyatt São Paulo. 

 

Os sabonetes que já foram utilizados pelos hóspedes são separados em um grande tonel e uma vez por semana uma ONG retira os itens no hotel. “Não fazemos nenhum tipo de preparação ou método diferente, apenas entregamos a matéria-prima disponibilizada para este fim (sabonetes de mel, algas, erva doce, amêndoas e glicerina). Após a coleta, os sabonetes são usados para preparação de produtos de limpeza que serão utilizados pela própria ONG”, explica.

 

O hotel distribui o material coletado para três ONGs previamente cadastradas: Lar Irmão José, Gotas de Flor com Amor e Caspiedade. A coleta é agendada para todas as quartas-feiras. A ONG é responsável por trazer seu próprio veículo para retirada do material. Além disso, o empreendimento doa outros itens que não é possível reciclar no local, como papel higiênico, shampoo, gel de banho, condicionador e hidratante.

 

Segundo Tânia na área de governança a reciclagem sempre fez parte da rotina, com o objetivo de colaborar positivamente com o desenvolvimento das comunidades em que o hotel trabalha. “A conscientização com o meio ambiente e seus desafios deveria ser um gerador de iniciativas. Nesse sentido, redes como a Hyatt podem ajudar também, já que suas boas práticas podem servir de modelo e inspiração para outros estabelecimentos”, ressalta.

 

Tânia acrescenta dizendo que se todos os hotéis soubessem dessa prática não teriam problemas em aderir, pois esse processo não atrapalha o dia a dia. “Se pararmos para pensar, as empresas que não participam desta prática sustentável estão descartando matérias primas de excelente qualidade que já valeram muito dinheiro”, avalia. 

 

Além da reciclagem de sabonetes, o Grand Hyatt São Paulo também implementou um programa que inclui dar um destino correto a materiais como papéis, plásticos, vidros, baterias e óleo de cozinha, o qual é entregue a uma outra ONG para a fabricação de sabão.

 

Empreendimento procura ONGs para programa de reciclagem
O São Paulo Airport Marriott Hotel, localizado próximo ao Aeroporto Internacional de Cumbica – Guarulhos (SP) e pertencente à rede Marriott International é outro raro exemplo de hotel que adota a prática. O empreendimento implantou um programa de reciclagem de barras de sabonetes, que está alinhada a filosofia “Espírito de Servir”, que prevê ações de responsabilidade social e ambiental. As sobras destes sabonetes em barras são coletados por funcionários do hotel.

 

Durante a limpeza dos apartamentos, as camareiras recolhem as sobras nos quartos e os depositam em um recipiente de cerca de 20 litros. Ao final de cada semana os valetes – responsáveis pela reposição de amenities de cada andar – recolhem as sobras e levam para a lavanderia.

 

Após o recolhimento as sobras são dissolvidas em água quente e se transformam num excelente desengordurante que é utilizado pelo próprio hotel na remoção de manchas e lavagem de panos de limpeza. “A reciclagem e reutilização dos sabonetes na lavanderia do hotel gera uma considerável economia na compra de produtos de limpeza, além de contribuir para a diminuição do impacto ambiental”, salienta Márcia Lisboa Lacerda Brito, Governanta executiva do São Paulo Airport Marriott Hotel.

 

Segundo ela o hotel está buscando novos parceiros para ampliar o alcance do projeto de reciclagem. Tendo em vista que esta prática sustentável é ainda pouco difundida no País, e consequentemente nas ONGs. “Cada hotel tem a sua gestão, por isso é difícil dizer o motivo da falta desta iniciativa. É necessário analisar cada caso individualmente, não se pode generalizar”, conclui.

 

Hotel do RJ dá exemplo de sustentabilidade
A consciência de reciclar sobras de sabonetes que podem salvar vidas e agregar responsabilidade social não é hábito somente de grandes redes internacionais que operam no Brasil.  O Hotel Bühler, localizado em Visconde de Mauá, na divisa do Rio de Janeiro e Minas Gerais, pertencente à família de imigrantes alemães Bühler, é um exemplo de sustentabilidade na hotelaria e ganhador de vários prêmios por suas ações socioambientais como o selo de Hospedagem Sustentável do Guia 4 Rodas. Entre os programas realizados no empreendimento está a de reciclagem de barras de sabonetes que acontece há mais de 10 anos. “Desde a 1ª geração da família já se tinha o hábito do não desperdício e de reutilizar materiais”, afirma Rogério Bühler, Gerente geral do empreendimento. 

 

Diariamente as barras de sabonetes são coletadas pelos funcionários do empreendimento e conduzidas para um processo de limpeza com água e depois são transformadas em novo tipo de sabão utilizado pelo próprio hotel para limpeza de pisos, e o resto fica estocado. “Quando apresentamos o projeto para os hóspedes, que inclusive participam juntando diariamente estes sabonetes. Eles percebem efetivamente o quanto destes produtos são utilizados e acabam reduzindo o consumo com esta iniciativa”, declara.

 

Segundo ele este projeto visa mostrar aos hóspedes um consumo mais consciente, que é possível reduzir custos reciclando materiais. Os produtos podem se tornar um novo material de limpeza, produzindo ao final da cadeia o lucro. “Nossa principal intenção com este programa é o benefício para a natureza”, enfatiza.   

 

Falta cultura
Para Bühler os hotéis no Brasil ainda não adotaram estas ações como a reciclagem de sabonetes porque falta na verdade é uma cultura mais voltada para o sustentável e menos para o capitalismo. “Os hotéis estão calculando somente o custo dos insumos, produtos e o preço de venda e logo encontrando um lucro irreal, porque não levando em conta o que traz de benefícios a utilização do passivo ambiental. É importante tornar-se cada vez mais sustentável, de acordo com o seu tipo de empreendimento. O Hotel Bühler também está trabalhando com o Projeto Lixo Mínimo “Uma Proposta Ecológica para Hotelaria”, que foi transformado em livro pelo SENAC”, finaliza. 

 

E o seu hotel, porque ainda não adotou esta responsabilidade social? Será que seu hóspede compactua com esta ação?

 

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