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Falta de planejamento poderá comprometer brilho da Copa do Mundo de 2014

O Dia e horário dessa postagem está no final, assim como nome do autor. O tempo estimado de leitura é de 7 minutos

José Roberto Bernasconi (foto) é o Presidente e Coordenador para Assuntos da Copa do do Mundo de 2014 do Sinaenco – Sindicato de Arquitetura e  Engenharia do Estado de São Paulo. É graduado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e também em Direito pela Universidade Paulista de São Paulo. Exerceu o cargo de diretor da Maubertec Engenharia e Projetos e de presidência do Instituto de Engenharia de São Paulo e do UNICCON – Centro de Integração Universidade – Construção e Consultoria. Também é membro da FIESP/CIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Com toda essa experiência e know-how Bernasconi não poupa críticas a falta de planejamento do Governo Federal para as obras de infraestrutura para receber a Copa do Mundo de 2014. Nesta entrevista exclusiva ele fala sobre os desafios e problemas do planejamento da infraestrutura, mobilidade urbana e da hotelaria do País para a Copa do Mundo de 2014.  Segundo ele um dos principais gargalos que comprometerão as obras para o evento esportivo que ocorrerá daqui a três anos é a falta de planejamento. Somado a isto estão a ausência de estudos por parte dos  administradores público que gerará uma má gestão e controle do dinheiro que serão destinado as reformas e construção de estádios, ampliação de aeroportos e na melhoria da infraestrutura urbana das cidades sedes. Confira mais detalhes a seguir nesta entrevista exclusiva.

 

 

 

Revista Hotéis – Você é um dos principais críticos do Governo federal em relação a gestão do dinheiro público para as obras da Copa do Mundo de 2014. Na sua opinião falta planejamento, controle ou é o excesso do jeitinho brasileiro?

 

José Roberto Bernasconi – Os principais problemas em relação às obras para a realização da Copa 2014 são a falta de planejamento e de gestão/gerenciamento/controle. As consequências da falta de planejamento – planejamento esse para o qual houve tempo mais do que suficiente para ser (bem) feito, pois o Brasil foi escolhido para sediar o Campeonato Mundial da Fifa em 2007 – são a ausência de estudos e projetos que permitissem aos administradores públicos definir a sua dimensão, localização mais adequada, ensaios topográficos e geológicos, os sistemas construtivos, instalações (elétrica, hidráulica, ar condicionado, TIC – Tecnologia da Informação e Comunicação) e itens de sustentabilidade, entre outros. E, a partir desses estudos e projetos completos, fazer a contratação da obra física já com dados como orçamento e cronograma pré-definidos. Isto permitiria o controle pelos administradores públicos e órgãos de fiscalização (TCU – Tribunal de Contas da União, TCE – Tribunais de Contas Estaduais e TCMs – Tribunais de Contas Municipais, Ministério Público) das obras, evitando superfaturamento e possibilitando o controle de qualidade dos serviços executados. Como não houve planejamento e a contratação de estudos e projetos nos prazos adequados (com antecedência de pelo menos um ano em relação à contratação da construtora/consórcio encarregado da construção), também não há gestão, controle e fiscalização eficientes, pois o projeto executivo, completo, é o instrumento mais eficaz para os “donos da obra”, os contratantes, fiscalizarem o que está sendo executado. O projeto completo é o que denominamos de “vacina anticorrupção”.

 

 

Revista Hotéis – Estamos a menos de mil dias para iniciar a Copa do Mundo de 2014 e o que se vê é uma completa ausência de planejamento. Na sua opinião isto acontece porque se tudo indicava há vários anos atrás que o Brasil seria o país sede deste grande evento.

 

José Roberto Bernasconi – Em resumo, o que precisa mudar é a cultura dos administradores públicos brasileiros, que, em sua maioria e com as exceções que somente confirmam a regra, não estão habituados a “pensar antes para fazer melhor”, ou seja, a planejar e a contratar projetos com a antecedência necessária para embasar a boa contratação das obras e sua fiscalização. Essa falta de cultura de planejamento evidentemente não acontece somente por má-fé ou incompetência, mas sim devido ao fato de o Brasil ter vivido, por mais de duas décadas, um período de inflação galopante, devido à qual a preocupação era com o dia a dia – um mês, em época de inflação descontrolada, já era um prazo muito longo. O Plano Real trouxe a estabilização da moeda, mas ainda não conseguimos mudar de forma consistente a mentalidade, a cultura, da maioria dos governantes, que ainda pensa no curto ou no curtíssimo prazo, de olho no calendário eleitoral. Países como o Japão, Estados Unidos e boa parte da Europa planejam e projetam suas obras durante dois, três anos. E as executam em um ou dois anos, da forma como foi minuciosa e rigorosamente projetada e orçada, com qualidade que garante a durabilidade desses empreendimentos por décadas, a serviço da sociedade. Este é o exemplo que precisamos perseguir.

 

Revista Hotéis – Qual será o grande desafio que o Brasil enfrentará para conclusão dos projetos de infraestrutura para a Copa de 2014? Será que dará tempo de concluí-los e atender às exigências da FIFA?

 

José Roberto Bernasconi – Os projetos de infraestrutura podem ser divididos em dois segmentos principais: os esportivos (arenas) e os gerais (aeroportos, mobilidade urbana e interurbana, portos, TIC, saneamento e segurança). A única certeza que é possível termos neste segundo semestre de 2011 é que os estádios ficarão prontos para a Copa. Em relação aos demais itens de infraestrutura, que representariam o legado mais importante para as populações das capitais que sediarão chaves da Copa, pouca coisa será realmente realizada. O legado fundamental, assim, será pequeno.

 

 

Revista Hotéis – Existe alguma estimativa de quanto custará os investimentos para a Copa de 2014?

 

José Roberto Bernasconi – Não há estimativa confiável, porque os investimentos programados/realizados para a Copa 2014 não estão sendo acompanhados por um sistema de gestão centralizado, rigoroso e confiável.

 

 

Revista Hotéis – Como você analisa o Regime Diferenciado de Contratações, ele pode ser a solução para resolver os entraves burocráticos ou existe outra maneira?

 

José Roberto Bernasconi – O RDC – Regime Diferenciado de Contratações representa, na realidade, a confissão pública da falta de planejamento por parte do governo federal. Com o RDC, busca-se ganhar tempo, “acelerando” procedimentos em detrimento da qualidade e do controle. A contratação de empreendimentos a partir de anteprojeto (sem definir o que isso seja) gera indefinição que permite descontrole de qualidade, custos e prazos.

 

 

Revista Hotéis – A privatização de alguns aeroportos chega numa boa hora para resolver este grande gargalo?

 

José Roberto Bernasconi – A concessão de alguns dos principais aeroportos, mesmo que em parte (expansão), se realmente efetivada em 2012 como garante o governo federal, é uma boa notícia. Levando em conta também a incapacidade da Infraero de executar todos os investimentos necessários, no prazo adequado, é fundamental abrir à iniciativa privada a possibilidade de realizar os investimentos e as obras necessárias de construção/ampliação dos aeroportos, como forma de buscar resolver os gargalos que afetam atualmente praticamente todos os principais aeroportos brasileiros.

 

Revista Hotéis – A mobilidade urbana durante a Copa do Mundo de 2014 é algo que preocupa ou você acredita que os investimentos que estão sendo feitos no setor são suficientes?

 

José Roberto Bernasconi – Os investimentos programados não serão suficientes, especialmente porque, na maioria das cidades, as obras necessárias sequer foram iniciadas, e em boa parte delas não há nem projeto contratado. Desta forma, o legado em mobilidade urbana a ser deixado para a sociedade em função da Copa 2014 deve ser pequeno, infelizmente, porque essa é uma das principais áreas para a maioria da população. A solução, paliativa, reside em os governos federal, estaduais e municipais decretarem férias escolares e feriados nos dias de jogo, para diminuir os inevitáveis congestionamentos e transtornos à população, devido à falta de transporte de massa em quantidade e qualidade suficientes na maioria das cidades.

 

 

Revista Hotéis – A mobilidade urbana pode ser o principal legado que a Copa do Mundo de 2014 deixará para o Brasil ou poderá haver outros legados?

 

José Roberto Bernasconi – Hoje o legado mais visível serão os estádios e, certamente, alguma melhoria em infraestrutura geral, longe do ideal.

 

 

Revista Hotéis – Na reforma e modernização dos estádios estamos vendo muitas greves, custos que aumentam todo dia, dinheiro público empregado em estádios particulares e os governos insistem em dizer que a situação é normal?

 

José Roberto Bernasconi – Não se pode controlar as condições climáticas e nem a ocorrência de greves. A solução para isso é cronograma não muito apertado. Como já se passaram mais de 1.400 dias desde o anúncio do Brasil como sede da Copa 2014, o que resta aos governos e construtoras/consórcios encarregados da execução das obras das arenas é desenvolver um planejamento estratégico de risco, trabalhando com as hipóteses de paralisações por greves, mau tempo etc.

 

 

Revista Hotéis – Como você analisa a hotelaria nacional, os investimentos na modernização e ampliação que estão sendo realizados são suficientes para atender a demanda de turistas, ou isto também preocupa?

 

José Roberto Bernasconi – Existe carência, mas, como o desafio é da iniciativa privada, confio que o setor responderá bem.

 

 

Revista Hotéis – No fim tudo pode dar certo ou corremos o risco de mostrar nossa incapacidade de planejar e sediar a Copa do Mundo de 2014?

 

José Roberto Bernasconi – No final, a tendência é de que façamos, da nossa maneira e com as adaptações necessárias, uma boa Copa!

 

 

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