HOME Matérias Opinião Explorando o turismo e não o turista!

Explorando o turismo e não o turista!

202
0
SHARE
Mario Cezar Nogales (Foto: Revista Hotéis)

*Artigo de Mario Cezar Nogales

Uma das grandes ferramentas de aumento do PIB de cada país no século 20 foi a descoberta do turismo. Atualmente, segundo a UNTWO, este tipo de geração de negócios já é de 10,4% do PIB Mundial e tem um crescimento médio de 4% nos últimos 9 anos, sendo 8% somente em 2017.

Obviamente que países com o apelo natural tem mais chances de crescimento que outros, contudo, museus e ruinas também atraem muitos turistas. Vejam o exemplo do Museu do Louvre, que recebe mais de 9 milhões de turistas anualmente ou o British Museum com mais de 6 milhões de visitantes por ano.

Já o número de turismo (desembarque internacional) no mundo registrou milhões de viajantes em 2017 e o Brasil recebeu apenas 5,07 milhões, o que significa 0,3%. Com esses resultados, o Brasil ocupa o 27º lugar no Ranking de países mais visitados do mundo, embora sejamos o 8º pais de maior economia do mundo.

Por que vemos esta disparidade com relação aos números mundiais que não é apenas na questão do turismo, mas também em outros indicadores sociais?

Obviamente que grande parte desta disparidade se encontra no quesito que estamos tentando resolver: a corrupção enraizada em quase todas nossas instituições públicas. Na questão do turismo também não é apenas isto, mas toda uma estrutura que pela falta de investimento estrutural, atrelado a corrupção e ganancia desmedida, colocam este maravilhoso país no 27º pais mais visitado. Se esperarmos o governo federal para resolver tudo, nada irá mudar já que as ações de turismo acontecem em cidades.

Pensando nestas ações pontuais, que são as cidades e os empresários ligados ao turismo, temos vários exemplos como as cidades de Tiradentes, Gramado, Campos do Jordão e as cidades praianas como o próprio Rio de Janeiro, Pajuçara, Porto de Galinhas e tantas outras. Diversas vezes conseguimos viajar para outros países a um custo menor que as viagens domésticas, mas o mesmo acontece quando o turista estrangeiro analisa suas opções e o destino Brasil acaba sendo um custo mais alto para sua viagem?

A resposta para o questionamento não fica apenas na falta de estrutura e segurança como grande parte somos conhecedores, mas uma boa parte desta resposta está na exploração do turista com relação aos preços. Muitas vezes me deparo com esta questão pois, o que custa normalmente R$ 10,00 para o morador local, ao turista se lhe é cobrado R$ 50,00 (exemplo com valores hipotéticos apenas para ilustração). Uma boa parte da resposta com relação a esta diferenciação de preços está na questão econômica de alta ou baixa procura que conhecemos como sazonalidade, porém, estatisticamente falando, apenas 1 de cada 20 empreendedores sabe de fato quanto lhe custa um ano de produção, os demais nada conhecem sobre seus custos, quem dirá planejamento já que o estilo administrativo de gestão de receitas que tem o planejamento como parte obrigatória, parcamente é utilizado ou sequer é conhecido. Ou seja, faz falta conhecimento do próprio negócio para ter preços justos e não explorar o turista.

Outra questão é o desconhecimento por completo do que é de fato o turismo e como fazê-lo crescer, principalmente pelos municípios e seus “políticos”, pois em grande parte das prefeituras em nosso país acredita-se que as épocas de alta temporada devem ser aproveitadas, vejam o caso pontual das cidades de Ubatuba e Campos do Jordão onde seu PIB basicamente depende do turismo.

Em Ubatuba desde 2015 foi criada uma taxa de turismo para transportes coletivos que variava entre R$ 200,00 (para vans) e R$ 1.000,00 (para ônibus), já neste verão de 2019 esta taxa subiu para R$ 1.200,00 (para vans) e R$ 3.000,00 (para ônibus). Já em Campos do Jordão foi criada para a temporada de 2019 a taxa de turismo no valor de R$ 5,00 para cada diária que os meios de hospedagem venderem, o que até então não havia.

Qual é a questão em que a Gestão Pública se justifica para criar este aumento, muito mais que abusivo e economicamente inviável?

Em Ubatuba o poder público chegou até mesmo a citar a “redução do número de turistas para evitar o turismo predatório e reforçar o cofre público devido ao aumento de lixo”, já o poder público de Campos do Jordão justifica a criação da taxa para “reforçar o caixa para cobrir a despesa com limpeza” ou seja, apesar do Governo Federal já demonstrar que irá cortar na própria “carne” os desmandos da gestão financeira de nossos impostos, estas prefeituras estão é de fato aumentando a tributação.

Na administração de Ubatuba, foi eleito em 2016 o prefeito Sato do PSD e no cargo de secretário de turismo está o Sr. Luiz Antonio Bischo, empresário do setor turístico, desde 1982 e também do ramo da construção civil, desde 1970. Diretor financeiro do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Litoral Norte há três gestões, Bischof já foi funcionário da Secretaria de Turismo no período de 1968 a 1970. Entre suas diversas ocupações em órgãos ligados ao turismo destacam-se a presidência da Companhia Municipal de Turismo na gestão 2001/2003 e o cargo de Delegado da Federação de Hotéis do Estado de São Paulo. Participou de diversas feiras de turismo no Brasil e no exterior representando o município. Luiz Bischof foi o idealizador das paradas de cruzeiros marítimos no município e também da construção do Centro de Convenções Alfredo Bischof. Participou ainda das construções das Igrejas São Francisco, no centro, e Nossa Senhora de Fátima, no Ipiranguinha.

Já Fred Guidoni (PSDB), o atual prefeito de Campos do Jordão, tem como seu secretário de turismo o Sr. André Luiz Elbis Barbêdo, e segundo seu curriculum no Linkedin, trabalha há vinte anos para indústrias de turismo. Ele é Consultor de negócios – Responsável pelo desenvolvimento de procedimentos e métodos para melhorar o desempenho e a sustentabilidade dos clientes ao longo dos serviços de inovação; Managing Partner – Promovendo o desempenho dos negócios e a cultura de inovação, lidando com todas as melhorias nas operações; Coordenador de Coach – Lida com todos os procedimentos no departamento de coaching, responsável pelo desempenho do coachee após o treinamento; Front Desk Manager – Treina e desenvolva a equipe da recepção e mantenha um serviço de alta qualidade para todos os clientes e Supervisor de Eventos – Gestão de Receitas de Eventos – Gestão Operacional.

Fica obvio aqui que ambos prefeitos deveriam estar muito bem assessorados em suas pastas, contudo a vontade de aumento de tributação para manter os desmandos com o que é público ainda faz parte do DNA de cada uma destas prefeituras.

Então temos: a falta quase que total de infraestrutura nas cidades; Impostos e taxas exorbitantes; falta de planejamento empresarial; ganância exacerbada tanto por parte empresarial quanto por parte política, o que coloca este país em 27º lugar na escolha do turista pelo mundo enquanto somos a 8ª potência econômica mundial com uma mentalidade de amadores.

*Mario Cezar Nogales é consultor especializado em hotelaria e conta com experiência profissional no ramo desde 1989, sendo autor de sete livros técnicos em hotelaria. Contato: mario.nogales@snhotelaria.com.br