HOME Matérias Entrevista Alfredo Lopes O Soldado da hotelaria Carioca

Alfredo Lopes O Soldado da hotelaria Carioca

74
0
SHARE

Desde o último dia 2 de outubro, quando o presidente do COI – Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, anunciou que o Rio de Janeiro sediará os jogos olímpicos de 2016, a capital carioca tornou-se a “menina dos olhos” para novos empreendimentos hoteleiros. A cidade que, provavelmente, será o palco da final da Copa do Mundo de futebol de 2014, necessita de pelo menos mais 12 mil leitos para sediar os jogos olímpicos, de acordo com a exigência do COI. Este pode ser o momento propício para que novos empreendimentos sejam erguidos na cidade maravilhosa, que terá investimentos estimados de R$ 1 bilhão até o evento. Por outro lado, algumas incertezas rondam o setor, como a super oferta, diminuição da diária e os condo-resorts, rejeitados por parte da hotelaria.
Para esclarecer este período muito promissor, mas que precisa ser avaliado com cuidado, nada melhor do que uma das maiores autoridades da hotelaria carioca, Alfredo Lopes, Presidente da ABIH / RJ — Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado do Rio de Janeiro. O “soldado da hotelaria carioca”, como ele se autodenomina, esclarece nesta entrevista quais as são as batalhas a ser vencidas para que a hotelaria carioca saia vitoriosa no futuro. Confira a seguir esta entrevista exclusiva.
 
Revista Hotéis — O que representa para a cidade do Rio de Janeiro ser a sede das Olimpíadas de 2016? Quais as oportunidades que um evento deste cria?
Alfredo Lopes — Em primeiro lugar, a Copa do Mundo, mesmo tendo várias sedes, já será um mega evento, em que o Rio de Janeiro, certamente, desempenhará um papel preponderante, possivelmente recebendo a grande final, a comissão da Fifa e o centro de imprensa. Sediar os Jogos Olímpicos dois anos depois, portanto, será um prêmio ainda maior, um privilégio que poucas cidades do mundo tiveram.
Para ambos eventos estão previstos grandes projetos de infra-estrutura para as áreas de transporte, saneamento e segurança, entre outros, que deixarão um legado importantíssimo para a cidade. É bom lembrar ainda que a iniciativa privada também se fará presente na construção de diversos empreendimentos. Todas essas obras serão responsáveis pela geração de milhares de empregos, além de proporcionar um crescimento de renda para a população.
Como são dois eventos de grande repercussão, a mídia mundial estará atenta a tudo que acontecerá por aqui, provocando dois efeitos extremamente saudáveis e benéficos. O primeiro é a cerrada marcação sobre as obras, que, obrigatoriamente, cumprirão os rígidos cronogramas, além de ter os orçamentos auditados. O segundo diz respeito a divulgação espontânea que o Rio ganhará. A cidade será o foco da mídia mundial por praticamente dez anos, o que é excelente para a indústria do turismo e para a economia da cidade em geral.
Portanto, trata-se de uma oportunidade única. O Rio é a bola da vez e estará no cento das atenções mundiais por um longo período. Temos que saber aproveitar os legados que estes dois eventos trarão e repetir o bom exemplo de Barcelona, que se transformou uma nova cidade e um grande destino turístico a partir das Olimpíadas de 1992.

Revista Hotéis — Quantos leitos a hotelaria do Rio oferece hoje, a taxa média de ocupação e a diária média praticada?
Alfredo Lopes — O Rio conta com 28 mil leitos atualmente. Em 2009, a taxa de ocupação, medida em pesquisa promovida pela ABIH-RJ, em parceria com a Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomercio-RJ), está em 65%. Já a diária média, em 2008, foi de R$ 267,00, considerando a oferta hoteleira de 2 a 5 estrelas, além de flats.

Revista Hotéis — O dossiê entregue pela candidatura da cidade do Rio de Janeiro ao COI — Comitê Olímpico Internacional prevê 52,7 mil leitos, mas para acolher os visitantes são necessários no mínimo 40 mil leitos. Quais seriam as soluções a serem utilizadas para atender a demanda?
Alfredo Lopes — Faltam aproximadamente 12 mil leitos para chegarmos aos 40 mil exigidos pelo COI. É bom lembrar que as vilas olímpicas e de imprensa também serão construídas, o que reduziria ainda mais esse número-alvo. Considero como última opção o arrendamento de navios cruzeiros, pois, como se sabe, a receita arrecadada não gera divisas para o País, além de ser uma medida que não deixa legado para a cidade. O mais importante, no entanto, é montar uma estrutura hoteleira sustentável, em que a oferta atenda perfeitamente a demanda pós-Jogos Olímpicos. Estamos no caminho certo.  

Revista Hotéis — A Prefeitura do Rio de Janeiro está criando um pacote de incentivos para estimular a construção de novas hospedagens na cidade e inclusive haverá a isenção de alguns impostos. A ABIH-RJ participou na elaboração deste pacote e como vocês analisam os incentivos?
Alfredo Lopes — Ao lado dos governos municipal, estadual e federal, estamos participando ativamente da elaboração deste pacote de incentivos, cuja importância não se limita apenas à construção de novos meios de hospedagem. Os incentivos também serão fundamentais para os projetos de modernização, reforma e ampliação dos hotéis em operação atualmente. Teremos até os Jogos Olímpicos, talvez até antes disso, para a Copa do Mundo, uma hotelaria bem estruturada e apta a receber turistas do mundo tudo.   

Revista Hotéis — Para atender a demanda de novos hotéis, a Prefeitura do Rio pretende estabelecer o modelo de condo-hotéis, mas a ABIH Nacional entende que este não é o modelo adequado, pois teme que aconteça uma super oferta como registrada alguns anos atrás na cidade de São Paulo. Como a ABIH-RJ vê esta questão?
Alfredo Lopes — Não podemos afirmar com toda certeza que teremos uma hotelaria plenamente sustentável após a construção de 12 mil novos leitos. A hotelaria depende do crescimento do turismo e, embora acredite plenamente no sucesso do evento, é difícil prever até que ponto o fluxo de turistas aumentará. Não se deve descartar um risco de super oferta, por isso os condo-hotéis são alternativas interessantes. Antes de mais nada, estes empreendimentos se configuram numa maneira eficiente de pulverizar o investimento. Além disso, estes imóveis podem ser vendidos posteriormente, diminuindo uma possível ociosidade do setor.
Caso a expansão da hotelaria carioca contemple os condo-hotéis, descarto um problema similar ao ocorrido em São Paulo há alguns anos. Vamos fiscalizar e nos certificar de que estes hotéis cumpram a legislação – que os obriga a ter 60% do pool de imóveis voltados para a bandeira hoteleira –, reduzindo qualquer chance de que aconteça a chamada “prostituição” destes empreendimentos. Considero este modelo híbrido totalmente viável para a cidade.

Revista Hotéis — A construção de novos hotéis para atender um evento com poucos dias de duração não poderia derrubar a taxa média e a diária? Quais os cuidados que se devem tomar a respeito? Fomentar eventos poderia ser uma solução?
Alfredo Lopes — Hotelaria é uma equação simples: a ocupação acompanha o número de turistas que o destino recebe. No final do mês passado, por exemplo, durante a feira da Abav, os hotéis da cidade estiveram lotados e quase faltou quarto para tanta gente. Isso, no entanto, não acontece sempre, mas deveria.
Uma das melhores alternativas é fortalecer e diversificar o calendário de eventos da cidade, que garante boas ocupações nos períodos de baixa temporada. Sofremos perdas consideráveis há alguns anos, como o GP de motovelocidade e a feira da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), entre outras. A Prefeitura, por meio da secretaria de Turismo, precisa trabalhar forte para captar novos eventos para o Rio.

Revista Hotéis — Dentro do projeto de candidatura apresentado pelo Rio de Janeiro ao COI prevê-se suprir a demanda de hospedagem da cidade com 8,5 mil cabines em navios que ficarão atracados no porto da cidade. Na realização dos Jogos Olímpicos é alta temporada no Hemisfério Norte. Quais as garantias que estes cruzeiros virão para o Rio de Janeiro? Os entendimentos já iniciaram? Se não for possível que os cruzeiros venham qual seria a alternativa para suprir esta lacuna?
Alfredo Lopes — Considero o arrendamento de navios cruzeiros a última opção para solucionar uma a falta de quartos. Em minha opinião, os cruzeiros são opções secundárias. Estamos trabalhando com a hipótese de melhor equipar a rede hoteleira construindo hotéis. Nosso projeto, portanto, é descartar estes meios de hospedagem, que não agregam absolutamente nada a economia carioca.

Revista Hotéis — Na orla marítima e Região da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro existem poucos terrenos disponíveis e com o advento da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 houve uma sobrevalorização das áreas que inviabiliza projetos hoteleiros. A Região Portuária seria a melhor alternativa para receber novos hotéis ou você acredita que existam outras regiões?
Alfredo Lopes — Quando começamos a produzir o relatório sobre hotelaria para o caderno de encargos da candidatura olímpica, a idéia de expandir o setor com a construção de hotéis na zona portuária ainda não era uma realidade. Por conta da escassez de áreas no resto da cidade, principalmente na Zona Sul, as melhores opções, hoje, se concentram realmente na Barra da Tijuca – onde os terrenos estão valorizados – e na zona portuária, que se transformou numa grata surpresa.
Para esta região, no entanto, é preciso desenvolver um projeto similar ao que foi feito em outras grandes metrópoles mundiais, como, por exemplo, Buenos Aires. Na capital argentina, a hotelaria que floresceu em paralelo a revitalização da zona portuária ganhou um perfil corporativo. O mesmo deve ser feito no Rio e tal tese também se justifica pela proximidade com o Centro, onde se concentram as principais empresas da cidade.

Revista Hotéis — Como estão os entendimentos para a utilização da rede hoteleira instalada próxima a cidade do Rio de Janeiro para atender a demanda das Olimpíadas de 2016? Os hotéis estão preparados às exigências do COI? Qual seria a disponibilidade de leitos?
Alfredo Lopes — O COI realmente estuda a utilização de hotéis nas cercanias do Rio, principalmente em Niterói, Mangaratiba e Itaguaí, entre outras cidades, que possuem uma rede hoteleira bem equipada. O estado possui uma geografia favorável, com muitos municípios próximos, e temos que utilizar com inteligência este privilégio. O primeiro passo será a Copa do Mundo, que servirá como teste para a utilização destes empreendimentos.
Se o evento fosse hoje, acho que estas cidades poderiam receber parte deste público sem problemas. Búzios está acostumada a hospedar turistas estrangeiros e é o maior exemplo do que estou me referindo. Além disso, temos tempo para preparar ainda melhor estes empreendimentos.

Revista Hotéis — Em qualquer cidade do mundo não são construídos quartos de hotéis exclusivamente para um determinado evento. Qual seria a destinação destas acomodações no futuro, caso não houvesse demanda?
Alfredo Lopes — Nosso projeto não contempla tal possibilidade. Estamos preparando a hotelaria carioca para um crescimento sustentável, em que os condo-hotéis são uma alternativa viável.

Revista Hotéis — A segurança no Rio de Janeiro é uma das principais preocupações do COI e infelizmente, recentes acontecimentos levaram a cidade às manchetes internacionais, com a violência comparada a cidades sedes de cartéis de drogas colombianos. Qual atitude a ABIH-RJ está tomando e que tipo de reação o setor prepara para alterar esta imagem?
Alfredo Lopes — Esse é um problema que foge à nossa alçada. Segurança pública é uma questão governamental. Vejo com ressalvas este alarde que fazem com a insegurança no Rio de Janeiro. Outras cidades mundiais sofrem com o mesmo problema, embora os fatores sejam diferentes. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, por exemplo, atentados terroristas são um grande risco. A violência, infelizmente, está inserida na sociedade – em todos os lugares do mundo.
Além disso, o Rio já mostrou inúmeras vezes que pode sediar grandes encontros, como a Rio Eco-92 e os Jogos Pan-Americanos, entre outros. Em todas essas ocasiões, a segurança foi bem feita e nunca houve problemas. Como carioca, gostaria de ver a cidade sempre segura, independentemente da realização de algum grande evento. Espero que os diversos investimentos que a cidade receberá se transformem em ferramentas alavancadoras para dar fim de vez com a violência.  

Revista Hotéis — Até que ponto o dólar barato atrapalha a taxa de ocupação nos hotéis da cidade do Rio de Janeiro, tendo em vista que vários deles possuem tarifa indexada à moeda norte-americana o que torna a diária acessível.
Alfredo Lopes — É, de fato, um impasse que atinge toda a hotelaria carioca. Enquanto as tarifas são indexadas ao dólar, todos os custos dos hotéis são em reais. Com a valorização da moeda brasileira, as margens ficam ainda mais achatadas, mas se trata de um problema que os empreendimentos já estão acostumados a encarar. É uma realidade do mercado.

Revista Hotéis — No próximo ano termina sua gestão frente à Presidência da ABIH-RJ. Você pretende se candidatar novamente? Qual o principal legado de sua gestão e os projetos em andamento?
Alfredo Lopes — O maior legado da minha gestão é, sem dúvidas, o amplo relacionamento que a entidade desfruta atualmente com todas as esferas governamentais. Hoje, a hotelaria carioca é não somente consultada sobre questões relativas à cidade, como é ouvida em suas demandas. Essa parceria estratégica que construímos com o governo é a principal marca da minha gestão.
Outro trabalho importante desenvolvido pela ABIH-RJ foi a criação dos Fóruns Regionais, que uniu ainda mais nossos associados em torno dos problemas que atingem o setor. Um bom exemplo é o fórum de Recursos Humanos (RH), que vem trabalhando fortemente no treinamento e capacitação de cerca de 10 mil colaboradores em todo o estado. O projeto consiste em palestras e seminários para formação dessa mão de obra, em que os próprios profissionais dos hotéis fluminenses ministram as aulas – o que barateia consideravelmente esse processo.
A partir dos fóruns também surgiram iniciativas interessantes, como os projetos Bacanas (CopaBacaba e IpaBacana, entre outros), em que estamos promovendo, em parceria com os governos municipal e estadual, um verdadeiro choque de ordem em alguns bairros da cidade, garantindo mais conforto e tranquilidade para turistas e a população.
Sobre minha permanência, de acordo com o estatuto da entidade, poderia continuar por mais um mandato, mas minha idéia é abrir espaço para uma nova liderança – e há muitas capazes de assumir esta responsabilidade. Ainda assim, sou um soldado da hotelaria carioca, e se o setor me chamar novamente para o combate, tenha certeza de que estarei a postos.

SHARE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here


CAPTCHA Image
Reload Image