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Marcenaria: o ponto forte do design hoteleiro

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No projeto de Consuelo Jorge, a madeira trouxe requinte e aconchego ao ambiente - Foto - Divulgação

Do clássico ao moderno, as soluções em madeira podem transformar o ambiente por sua variedade de formas, tamanhos e a sofisticação que trazem

Atualmente, muitos hotéis têm adotado novos conceitos em seus projetos arquitetônicos. Em alguns deles, linhas mais clássicas, paredes brancas e móveis tradicionais deram lugar a texturas, cores diversas e mobiliário moderno, versátil e criativo. Nesta atualização de design, a marcenaria entra como ponto forte ao trazer, ao mesmo tempo,  leveza e sobriedade aos ambientes, fazendo parte da própria estrutura. Todo projeto começa com a concepção de um conceito dentro do briefing dado pelo hoteleiro e o budget estipulado. A marcenaria normalmente representa o maior custo na implantação hoteleira e, portanto, o item que deve ser melhor elaborado.

A grande vantagem da marcenaria é a possibilidade de personalização dos ambientes. Antigamente, os quartos eram padronizados e as áreas comuns eram projetadas apenas para cumprir funções específicas sem diferenciais. Hoje, o hóspede busca algo diferente, ele quer entrar em um ambiente e sentir experiências novas. A marcenaria dá liberdade para que o arquiteto consiga criar espaços inusitados e impactantes, além de oferecer diversas opções de acabamentos, texturas e se adequar as dimensões dos ambientes.

O mobiliário mudou muito na hotelaria moderna e a madeira maciça foi substituída por materiais leves, práticos, ajustáveis às mudanças, que possuem uma variada opção de cores para combinar com qualquer ambiente. A madeira maciça é composta apenas por madeira natural, como já diz o nome, sem aglomerados ou fibras sintéticas, o que faz com que o seu peso e o seu custo sejam altos. Como ela é feita toda de material natural, ela dilata com maior facilidade e trabalha com as variações de temperatura, e com o tempo, pode resultar em frestas e peças empenadas. Ela é extremamente resistente, porém, pelo seu custo elevado e grande necessidade de matéria prima natural, ela não é muito utilizada na área de hotelaria. Seu uso vem sendo reduzido nos últimos anos também em outras áreas da arquitetura por não ser uma solução sustentável.

De acordo com o Catálogo de Madeiras Brasileiras para Construção Civil, produzido pela organização WWF e pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas (2013), o Estado de São Paulo é o maior consumidor de madeira tropical no Brasil, tendo recebido em 2011, 14% da produção madeireira amazônica certificada. Deste volume, 56% são painéis compensados e 38%, madeira serrada. A construção civil e a indústria moveleira destacam-se como os principais setores de consumo dessa madeira e para garantir o seu suprimento e uso sustentável, é necessário assegurar sua procedência, de origem legal e não predatória.

Painéis leves possibilitam diversas funcionalidades à madeira, como no projeto de Thomas Michaelis - Foto - Divulgação
Painéis leves possibilitam diversas funcionalidades à madeira, como no projeto de Thomas Michaelis – Foto – Divulgação

Primeiros passos

O primeiro aspecto a se considerar é especificar um material que esteja dentro do budget estipulado para o projeto. Segundo Consuelo Jorge, arquiteta experiente responsável por projetos de hotelaria, incorporações, residências, design de mobiliário, entre outros, sempre buscam-se as melhores soluções de design, porém elas devem respeitar as limitações financeiras apresentadas junto com o briefing inicial do projeto. Além do custo ser essencial para a escolha do material, ele deve ter alta durabilidade para que não necessite ser reparado ou substituído com muita frequência. “O uso e manuseio dos móveis na hotelaria é intenso e eles precisam resistir a batidas, arranhões ou outros acidentes que podem acontecer”, afirmou a arquiteta.

Outro aspecto importante é a fácil manutenção dos móveis para facilitar ao máximo a operação hoteleira. Os funcionários do hotel precisam ser ágeis na limpeza e manutenção diária dos apartamentos e das áreas comuns de forma a não interferir na experiência do hóspede. Os móveis também precisam ter design diferenciado que estejam em harmonia com todo o projeto e sua concepção. Hoje, a personalização e espaços diferenciados se destacam e os móveis devem ambientar esses novos espaços com soluções criativas e funcionais.

Outro item de extrema importância na especificação dos materiais é a escolha de produtos que utilizem tecnologias de fabricação sustentáveis. Especificar móveis de fornecedores que possuem certificações de sustentabilidade, com consciência ambiental, que se preocupem com a redução e descarte adequado de resíduos e com a reciclagem de materiais. Em relação a marcenaria de hotelaria, os melhores materiais são o MDF (Medium Density Fiberboard) e o MDP (Medium Density Pannel) por atenderem todos estes requisitos.

Consuelo Jorge: “Móveis com excesso de detalhes tenderão a ser substituídos por peças simples e funcionais. O menos é mais” - Foto - Divulgação
Consuelo Jorge: “Móveis com excesso de detalhes tenderão a ser substituídos por peças simples e funcionais. O menos é mais” – Foto – Divulgação

Os cuidados com os móveis de madeira devem ser feitos desde o seu transporte, descarregamento, armazenagem e, depois que estão instalados, a sua manutenção e limpeza. É necessário sempre se atentar a proteção das embalagens e evitar o empilhamento das peças ou que se arrastem umas sobre as outras. Em caso de necessidade de armazenamento, os móveis sempre deverão estar protegidos em local coberto e longe de fontes de umidade ou calor intenso. Tanto móveis feitos em MDF ou MDP são destinados para o uso em áreas internas e não devem ser expostos à ação da água. Estes produtos não possuem camadas de proteção e nem alta resistência a riscos e abrasão, portanto devem ser evitados em áreas de pisos, sendo destinados para o uso de paredes ou confecção de mobiliário. “A limpeza dos móveis deve ser feita com uma flanela limpa e seca, e em casos de muita necessidade é possível utilizar pano úmido com detergente neutro. É necessário seguir sempre as orientações de cada acabamento para prolongar a vida útil de um móvel e evitar que ele sofra danos por mal-uso ou por utilização de materiais de limpezas inadequados”, aconselhou Consuelo.

Opções leves

De acordo com Consuelo Jorge, as soluções em madeira devem auxiliar nas operações diárias do hotel para minimizar a necessidade de reparos constantes e tornar a rotina dos funcionários mais ágil e prática. A marcenaria deve ser pensada para suprir todas estas necessidades, portanto, a escolha dos acabamentos e dos materiais utilizados são extremamente importantes para garantir a qualidade dos móveis.

Segundo ela, todas as soluções que são propostas nos projetos que realiza precisam ter alta durabilidade, resistência e serem de fácil manutenção. O MDF e o MDP são soluções feitas de placas de madeira prensadas, a diferença principal está na composição destas placas, o que faz com que tenham características diferentes. O MDF é composto de uma placa de densidade pequena composta por placas externas de maior densidade, portanto a sua parte interna é mais maleável e tem menor durabilidade, o que o torna mais adequado para projetos com curvas ou que necessitam de maior maleabilidade. A sua superfície externa não é muito absorvente fazendo com que seja ideal para receber pinturas, representando economia na quantidade de tinta a ser aplicada. O painel de MDF pode ser revestido com películas decorativas melamínicas que são mais resistentes que a pintura, solução mais adequada no segmento de hotelaria.

Ao contrário do MDF, o MDP possui a parte interna mais densa e as camadas externas menos densas, o que faz o material ser mais rígido, suporte mais peso e seja mais adequado para superfícies retas. é utilizado bastante em painéis, gavetas, bancadas, entre outros. O MDP também pode ser revestido apresentando diversas cores e texturas diferenciadas.  “Os tipos e variações de acabamentos dos materiais são considerações importantes na hora da concepção de um projeto. Inicialmente, já devemos ficar atentos ao que o mercado oferece para sugerir cores e texturas que possam ser utilizadas, e fazer nossa proposta de acordo”, explicou a arquiteta.

No Pullman Vila Olímpia (SP), Consuelo Jorge criou um grande painel ripado em marcenaria - Foto - Divulgação
No Pullman Vila Olímpia (SP), Consuelo Jorge criou um grande painel ripado em marcenaria – Foto – Divulgação

A marcenaria tem o poder de sofisticar um ambiente, como é o caso do projeto do restaurante do hotel Pullman Vila Olímpia, na capital paulista, realizado pelo escritório Consuelo Jorge Arquitetos. Foi criado um grande painel ripado em marcenaria que deu a sensação de aconchego, sofisticação e criou uma textura ritmada no ambiente. Outra vantagem da marcenaria é poder criar desenhos com cores e texturas diferentes. “Utilizamos este conceito no balcão do Sushi Bar do Pullman Vila Olímpia. A parte de baixo do balcão é revestida em painel de madeira da Oca Brasil que cria um movimento através de um mosaico de formas geométrica”, contou Consuelo. A marcenaria pode ser desenvolvida também com detalhes de iluminação embutida, tornando o ambiente mais contemporâneo, o que acontece no projeto da recepção do hotel Adagio Alphaville, implantado no final de 2016. O requadro do balcão é iluminado através de um acrílico fosco, chamando a atenção do hóspede para esta área.

Nas suítes que foram desenvolvidas pela arquiteta para o hotel Mercure Lourdes Belo Horizonte, também foi utilizada a iluminação embutida na marcenaria. Neste caso, o objetivo foi criar ambientes aconchegantes com iluminação indireta para o hóspede ficar em um apartamento agradável e confortável.

Hoje os hotéis precisam proporcionar uma imersão do hóspede dentro do destino que ele se encontra. Precisam trazer experiências novas e boas sensações. O hóspede busca algo inovador, inusitado, que esteja ligado à tecnologia e criatividade e a tendência da marcenaria é ir de encontro com essas novas necessidades e desafios de uma geração que está em constante mudança. “O projeto precisa ser personalizado, versátil e leve para se adaptar aos desejos desta nova geração. Os materiais, as cores e o design do projeto deverão acompanhar a forma que as pessoas se comportam. Os espaços estão mais integrados e menos segmentados. A tecnologia e interatividade precisam fazer parte deste conceito, ao mesmo tempo, o design precisa ser funcional e prático para atender um hóspede que não quer perder tempo e quer aproveitar ao máximo a sua estadia. Os móveis desenvolvidos deverão ser multiuso. Não existe mais aquela divisão de lobby, bar, restaurante, mesa de trabalho. Tudo está integrado e conectado. A marcenaria deverá ser menos rígida, mais flexível e mais sensorial. Ao mesmo tempo, as peças precisarão ter muita personalidade para causar impactos e sensações surpreendentes. Móveis com excesso de detalhes tenderão a ser substituídos por peças simples e funcionais. O menos é mais”, destacou Consuelo Jorge.

O hóspede também sente maior necessidade de estar conectado à natureza e as cores da marcenaria irão refletir isso. Cores que encontramos nas flores ou que nos passam as sensações de aconchego, conforto e descontração serão mais utilizadas, como é o caso dos tons de azul, verde e rosados.

Thomas Michaelis: “As propriedades físicas entre as madeiras são distintas, e podem ajudar ou prejudicar a qualidade técnica e estética desejadas quando a escolha não for correta” - Foto - Divulgação
Thomas Michaelis: “As propriedades físicas entre as madeiras são distintas, e podem ajudar ou prejudicar a qualidade técnica e estética desejadas quando a escolha não for correta” – Foto – Divulgação

Madeira: tradução de conceito

Se algum dia a madeira esteve restrita apenas para móveis, pisos e estruturas da construção, hoje ela tem uma importância prioritária para o projeto de interiores. Para o arquiteto Thomas Michaelis, responsável pelo projeto do primeiro hotel Formule 1 no Brasil, além de uma centena de outros empreendimentos, é através da marcenaria que o arquiteto materializa suas ideias, usando uma biblioteca de elementos como móveis soltos, fixos e revestimentos. “O arquiteto utiliza a marcenaria não só como  a oportunidade de realizar um projeto específico de um ou mais elementos dessa biblioteca, bem como traduzir através dela todo o conceito espacial desejado”, comentou.

O mercado brasileiro vem oferecendo novos tipos de acabamentos, cada vez mais resistentes  e com as mais variadas possibilidades de aplicação, o que de certa maneira melhora e auxilia na criação e liberdade dos arquitetos nos quesitos design, durabilidade e praticidade na manutenção características muito importantes na hotelaria. “Não esqueçamos que também o universo das ferragens vem  contribuindo com muitas opções de funcionamento e design”, acrescentou Michaelis.

Ele explica ainda que os móveis específicos são desenhados para funções variadas dentro de um hotel, onde não se encontra algo disponível “em prateleira” para essas determinadas funções. Segundo ele, um desenho específico demanda muita pesquisa e conhecimento, para que ele possa cumprir com eficiência e beleza a função para a qual ele foi desenhado. Além da proveniência certificada, as madeiras devem estar “secas” para evitar que elas prejudiquem a estética e a funcionalidade do produto elaborado. Muito importante também é a escolha certa da madeira. “As propriedades físicas entre elas são distintas, e podem ajudar ou prejudicar a qualidade técnica e estética desejadas quando a escolha não for correta. Isso sem falar nas cores de cada madeira, que tem extrema importância para o apelo estético que queremos dar em cada projeto”, afirmou o arquiteto.

Thomas diz ainda que a madeira é o um material ecológico para a construção, e por isso é tão importante. O reflorestamento cada vez foi desenvolvido para atingir diversos setores, até que chegou nos móveis, onde utilizam madeiras reflorestadas na forma sólida aparente ou revestida, e ao utilizar esse tipo de madeira nos móveis não existe o desmatamento de mata nativa, e com isso há um apelo ecológico para o uso de tais madeiras, além de ter um custo menor.

Denise Aurora:“Design e arquitetura servem para isso: dar alma e criar emoção” - Foto - Divulgação
Denise Aurora:“Design e arquitetura servem para isso: dar alma e criar emoção” – Foto – Divulgação

Questão emocional

Envolvida tanto com as ciências exatas como humanas, a arquitetura contempla muito mais que um projeto de edificações ao dar vida a ele; Traz também o cuidado com o habitat humano. E se tratando de pessoas, o hotel é o lugar ideal para ter em seu design um aspecto acolhedor e até familiar para pessoas. Para Denise Aurora, arquiteta e urbanista que produziu e participou de centenas de Projetos Arquitetônicos de hotéis, corporativos, escolas, institucionais, comerciais, residenciais, etc, qualquer elemento a ser projetado ou especificado, inclusive em um hotel, precisa ser funcional, prático e diversos outros requisitos obrigatórios, se tratando de business. Mas ela destaca uma característica imprescindível tão importante quanto: a emoção. “Não é este o diferencial que os hóspedes estão buscando experimentar ao procurar sair da vida padronizada? Isto não quer dizer que não possa haver racionalização produtiva ou âncora no orçamento. Trata, ao contrário, de procurar surpreender naqueles elementos onde nem sempre se espera: uma marcenaria de hotel, o que pode ser inovador nisto? E quando ideias criativas surgem, um elemento antes complementar pode passar a ser o protagonista. Depende do conceito do projeto”, opinou a arquiteta.

Denise Aurora se considera “ortodoxa” na concepção de um novo projeto. Na abertura de um novo esboço — sendo este um Design de Interiores, uma Arquitetura ou uma Implantação —, é imprescindível responder a algumas perguntas: qual é o escopo (objetivo), o prazo e o custo do projeto. Na sequência, quem são os envolvidos no projeto (o perfil, estilo, cultura de quem utilizará, quem fará a manutenção, quem está contratando, seus objetivos comerciais) entre outros critérios. “Somente quando respondemos a estas perguntas começamos a entender de verdade o briefing do que estamos fazendo”, afirmou.

Funcionalidade e Design no projeto de Thomas Michaelis para o restaurante do Novotel Porto Atlântico (RJ) - Foto - Divulgação
Funcionalidade e Design no projeto de Thomas Michaelis para o restaurante do Novotel Porto Atlântico (RJ) – Foto – Divulgação

Os móveis planejados, dentro do Design de Interiores, precisam receber a mesma atenção sobre estes critérios pré-especificações. A especificação adequada, as ferragens a serem utilizadas, os acessórios, iluminação e automação integradas, todas estas decisões dependerão das premissas “mestres” que estão sendo seguidas. “Por isso, é tão importante, na medida do possível, ter um planejamento integrado da implantação ou renovação do hotel. Muitas vezes, ir tomando soluções de forma isolada ou imediata, sem uma estratégia abrangente, pode gerar frustrações. Um móvel planejado, não diferente disso, pode ser muito adequado a um contexto e não tão satisfatório em outro”, pontuou a arquiteta.

Segundo ela, hoje há disponível no mercado uma grande variedade de materiais, que conseguem atender a quase totalidade de nossas necessidades como agentes criativos. “Primeiramente podemos fazer um filtro pelos aspectos técnicos dos materiais: dimensões, resistências diversas, densidade e peso. Um produto que merece destaque aqui é a chapa de MDF fogo retardante que evita e retarda a propagação de chamas. O produto foi ensaiado no IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Para hotelaria este é um aspecto de alta relevância, e um projeto especializado precisa contemplar particularidades como esta. Da mesma forma, as possibilidades estéticas dos produtos também trouxeram muito mais flexibilidade aos processos de projetos”, explicou Denise.

Em mundo contemporâneo onde ser só funcional ou só estético não atende mais, balancear as soluções é o que se deseja. Junto a estas expectativas, também é importante que os produtos tenham vida útil satisfatória, porque além de melhorar o ROI (Retorno do Investimento, em português) do investidor, também estamos preocupados com os impactos de consumo. E nestas novas expectativas e reinvenções é que vão surgindo as disrupções no design. “O design volta a ter um lugar muito importante porque precisa dar conta de uma equação ampla. Este design está desde os eletrônicos de alta tecnologia aos móveis sem puxadores ou sem portas que não vão existir só por existir. Aliás, em hotéis, cada corrediça de gaveta conta. Será que aquela gaveta do projeto acrescenta ou tem-se uma outra solução para ela? Aí começa a conversa sobre tendência”, afirmou.

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Denise conta ainda uma experiência que teve logo no início da profissão, de uma casa de hóspedes que projetou para a sede da fazenda de um engenheiro com quem trabalhou. Este engenheiro era um de seis irmãos que havia crescido em uma casa no interior de Minas Gerais. “Uma casa muito simples, conforme ele descreveu, que foi crescendo com a necessidade da família, sem muita expressividade arquitetônica, mas carregadíssima de histórias felizes. As famílias crescem, mudam e um dia estas casas são demolidas. Desta, foram guardadas madeiras de todos cantos: das janelas, portas, estruturas de telhados, lambris, assoalhos… mas não estavam em condições tão boas, com tonalidades, texturas e marcas muito diferentes entre si. Não dava para serem aproveitadas integralmente. O sonho do cliente era criar uma grande porta de entrada, pé direito duplo, com um pouco de cada peça, como num patchwork ou colcha de retalhos de memórias e saudades. Assim cada familiar que se hospedasse naquela casa, sentiria uma hospitalidade única. Design e arquitetura servem para isso: dar alma e criar emoção, isto é o que fica para quem passa. E esta experiência pode estar em uma arquitetura inteira ou em um móvel, em uma casa de hóspedes ou em um hotel inteiro”, contou.

Nova fábrica da DM Móveis em Gravataí (RS), onde produz em alta escala para todo o País - Foto - Divulgação
Nova fábrica da DM Móveis em Gravataí (RS), onde produz em alta escala para todo o País – Foto – Divulgação

Sustentabilidade

Quando se fala sobre sustentabilidade, devemos lembrar primeiramente que trata-se de um conceito sistêmico que abrange além do olhar ambiental, aspectos sociais, culturais e econômicos. “Nesta amplitude de conceitos, diversas normas e certificações podem ser relacionar, de alguma forma, com a longa cadeia que envolve a produção de móveis. Uma empresa pode ser certificada quanto à utilização de madeiras legais, ou sobre seus critérios de produção e descartes, ou políticas institucionais com seus funcionários. Há inúmeros olhares e critérios”, considerou Denise Aurora.

Se tratando da matéria-prima principal, a madeira tem uma relevância maior sobre o aspecto ambiental, ou seja, a origem e controle das árvores. No Brasil, estima-se que existam mais de 11.000 espécies de madeira na floresta Amazônica. Mas nem todas são recomendadas para a marcenaria, pois cada uma possui características de aplicação como densidade, veio e cor, facilidade de ser cortada, torneada, furada, entre outros.

Neste sentido, as principais certificações relacionadas são a ISO 14001 de Sistemas de Gestão Ambiental, que controla os resíduos visando evitar poluição contribuindo assim para manter a biodiversidade. Segundo a certificação ISO, em média, uma empresa demora de um a dois anos para conseguir uma certificação, passando por um levantamento e uma auditoria minuciosa. Todas as empresas que estão preocupadas e desejam estabelecer práticas sustentáveis e aprimorar sistemas de gestão ambiental devem buscar a certificação.

Há também o selo FSC  (Conselho Brasileiro de Manejo Florestal), cuja associação internacional foi criada para promover o manejo florestal responsável no mundo. Dentro do FSC há três tipos de certificações: Manejo Florestal, Cadeia de Custódia e Madeira Controlada. A madeira deve ser manejada de forma ecologicamente adequada, socialmente justa e economicamente viável.

De acordo com Thomas Michaelis, a madeira é um material ecológico para a construção, e por isso é tão importante. O reflorestamento cada vez foi sendo desenvolvido para atingir diversos setores, até que chegou nos móveis, onde utilizam madeiras reflorestadas na forma sólida aparente ou revestida, e ao utilizar esse tipo de madeira nos móveis não existe o desmatamento de mata nativa, e com isso há um apelo ecológico para o uso de tais madeiras, além de ter um custo menor.  “Cada vez mais há uma preocupação com o meio ambiente e com a sustentabilidade e com isso, os móveis não devem ter somente boa qualidade, é importante saber se o ambiente de onde foi extraída a madeira continua saudável. Com isso, foram desenvolvidas legislações ambientais adequadas”, explicou o arquiteto. Além disso, existe a certificação florestal, que tem como fundamento a garantia dada ao consumidor de que determinado produto é originário de manejo florestal ambientalmente adequado, socialmente justo e economicamente viável e existem diversos selos para isso, além dos já mencionados, como o Cerflor que tem parceria com a ABNT e o Inmetro e o PNQM – Programa Nacional de Qualidade da Madeira.

Sob medida

Muitas vezes, o investidor ou implantador pensou junto ao arquiteto a forma exata do hotel, mas encontra dificuldades em encontrar um fornecedor que atenda exatamente ao que foi projetado. Pensando nisso, a AD Movelaria dispõe de móveis sob medida, com as especificações e padrões desejadas pelo cliente, além de se comprometer com rápido prazo de entrega e equipe de montagem qualificada.

De acordo com Daisy Dallano, Diretora da AD Movelaria, atualmente a empresa busca atender a todo tipo de hotel, desde o mais simples ao mais sofisticado, devido às opções de espessuras, acabamentos e ferragens oferecidas. A AD Movelaria junto com a fábrica Italínea fazem uma pesquisa nos grandes centros para poderem seguir as tendências que o mercado aponta e se adaptam para atender as necessidades dos clientes.

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Produção em alta escala

A marcenaria é o ponto de partida para a definição de outros elementos de decoração, ao mesmo tempo, precisa ser harmoniosa e funcional seguindo normas de uso e segurança. É na marcenaria que o arquiteto expressa o conceito que terá os apartamentos do hotel. É o que acredita Valdecir Alano, Gerente Comercial da fabricante DM Móveis. Com sede e fábrica na cidade de Gravataí (RS), a DM Móveis é uma empresa que atende todo o Brasil, especializada na produção de Móveis em marcenaria para áreas internas dos hotéis, ou seja, quartos e áreas sociais. A empresa, que ao longo de seus 21 anos atua no segmento hoteleiro, realiza alta produção obtida através de maquinário moderno e estrutura de produção de uma indústria inaugurada há um ano. De acordo com o Gerente, a DM Móveis possui também engenharia e montagem especializada, o que confere maior agilidade e precisão ao processo de montagem executado por equipes próprias que se adaptam as mais diferentes configurações de logística e normas legais e de segurança.

Segundo Alano, a principal matéria-prima utilizada na produção é o MDF com revestimento em melamina nos padrões madeirados e cores. O MDF também pode receber revestimento de laminados de alta pressão ou pintura. “O tratamento dependerá do local que o móvel será instalado diferenciado principalmente com o uso em área interna ou externa. Para áreas internas, que é o nosso segmento, é importante a matéria-prima ser de qualidade com tratamentos e revestimentos de fita de borda específicos contra umidade, mofo, impacto e uso intenso”, explicou o Gerente, que destaca que todas as madeiras e substratos devem ser certificados, sendo o selo SFC o mais comum. “A implantação hoteleira tem se tornado muito dinâmica e os móveis tendem a transparecer modernidade, com uma forte tendência a uso de diferentes elementos combinados em especial MDF, metal, tapeçaria e iluminação, formando um produto único. Devido a isso, é preciso inovar e investir constantemente em máquinas e capacitar equipes para absorver toda a criatividade e inovação, sem perder o foco em prazo e qualidade final do produto instalado”, acrescentou.

Este ano, a empresa inaugurou uma nova planta industrial com 6,5 mil m², concebida especialmente para comportar o maquinário de corte, laminação, centros de usinagem e proporcionar maior conforto e segurança as equipes de produção. “Especificamente no produto realizamos em conjunto com equipe de arquitetura do cliente a reengenharia dos móveis, com o objetivo de maximizar o uso incorporando funcionalidade e acessibilidade sem perder o design proposto”, concluiu o Gerente.

Escrito por Raiza O. Santos

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