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Hotéis Cassino podem voltar ao Brasil

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A liberação dos jogos nos hotéis poderia ser uma boa fonte de recursos para fomentar o setor no Brasil - Crédito da foto - Conrad

Público fiel de cassinos em países vizinhos, os brasileiros seriam os principais beneficiados com a regulamentação dos jogos no País: empregos, economia aquecida e fontes de financiamento para o setor hoteleiro

Quando o Presidente Eurico Gaspar Dutra resolveu acabar com os cassinos no Brasil em 1946, além de gerar milhares de desempregos levou também a falência de vários tradicionais hotéis que exploravam os jogos, como o Grande Hotel Lambari (MG), o Quitandinha em Petrópolis (RJ), o Ahú, em Curitiba (PR), e muitos outros. Os hotéis que ficaram, tiveram que buscar outras fontes de renda para se manterem competitivos no mercado, como o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, o  Thermas em Araxá (MG) ou mesmo o Boulevard em Santos (SP). Desde então, o assunto permanece sendo um tabu até hoje. A volta da legalização, regulamentação e liberação dos jogos no País e da implantação de hotéis-cassino são assuntos que rodeiam o Senado, conversas de investidores, empresários e da sociedade, mas até hoje não tiveram nenhum avanço considerável. Diversos projetos de lei foram criados para que as atividades fossem retomadas no País, com argumentos favoráveis à atividade, já que se trata de um modelo de negócio que funciona em outros países de maneira rentável, mas nenhum deles até hoje chegou a ser votado na câmara de deputados. As burocracias e legislações atuais são dois dos grandes empecilhos para que a atividade volte a ser praticada no País.

A hipocrisia é reinante, pois estima-se que o jogo ilegal movimente cerca de R$ 18 bilhões por ano no Brasil. Uma vez regulamentado, haveria uma boa fonte de tributação para o Governo, mas este deveria criar uma rigorosa fiscalização para não acontecer como recentemente com os bingos, em que a maioria sonegavam impostos e não repassavam verba para os clubes de futebol. Com isto, vários bilhões de reais de brasileiros deixariam de sustentar várias cidades do Uruguai, Argentina e Paraguai, onde o jogo é regulamentado. Em 2014, os cassinos do Uruguai movimentaram cerca de US$ 235 milhões, além de terem empregado mais de 1,2 mil funcionários, de acordo com o Casinos del Estado Uruguay, órgão ligado ao Ministério de Economia e Finanças do Uruguai. Os fundos arrecadados com os jogos são destinados para o fundo de previdência, ministério do turismo, comissão do patrimônio histórico, artístico e cultural do país, entre outros.

Preferido dos brasileiros

Situado no Uruguai, o Conrad Punta del Este Casino & Resort conta com um cassino estilo Las Vegas e é o preferido dos brasileiros. O Brasil é exatamente o principal mercado do empreendimento, representando cerca de 70% do público no hotel/ano. Demonstrando o quanto o público brasileiro é importante para o resort, o hotel possui dois voos charters semanais com 172 lugares, saindo do aeroporto de Guarulhos direto para Punta del Este. Os voos são exclusivos para os clientes do complexo e partem todas as quintas e domingos. Recentemente, o empreendimento fez uma parceria com a LATAM para mais voos semanais diretos de Punta Del Leste para São Paulo e Rio de Janeiro.

Para atender tamanha demanda, principalmente brasileira, o Conrad anunciou recentemente um ambicioso plano de expansão. O investimento total, que chegará a US$ 220 milhões, inclui a construção de três torres, além de outras reformas e ampliação do edifício existente. Os investimentos também incluem a extensão da superfície do cassino em 670 metros quadrados, e da área dos restaurantes e bares em 1.180 metros quadrados, a construção de novos espaços gastronômicos e piscinas externas. “Quando assumimos a gestão do Enjoy Conrad pouco mais de dois anos atrás, antecipamos o nosso objetivo de investir pesado do hotel, além de trabalhar no fortalecimento de Punta del Este como um destino turístico de importância mundial. Este projeto – em conjunto com outras iniciativas já realizadas – está de acordo com o objetivo principal e mostra que nós estamos mantendo nossas promessas”, comentou o Gerente Geral do Enjoy Conrad, Juan Eduardo García.

Para manter a programação do resort variada durante todo o ano, o empreendimento sempre prepara com antecedência um calendário de atividades que incluem todos os torneios de slots, Poker e Baccarrat, além dos festivais gastronômicos, desfiles de moda e shows. “Desde a abertura do OVO, oferecemos propostas para o segmento mais jovem que antes concorria com o Conrad. No OVO Nightclub temos uma programação com grandes DJs internacionais e festas de prestígio. No complexo Conrad o cliente não encontra apenas um bom cassino, mas uma boa experiência gastronômica, boas festas, SPA e atividades para crianças, onde toda a família pode desfrutar de uma boa experiência”.

Para se ter uma ideia da movimentação que o resort uruguaio recebe no ano, basta analisar os números de seu cassino. Por dia, cerca de 12.000 pessoas passam pelo Cassino durante a alta temporada. Na média e baixa temporada, cerca de 5.000 pessoas passam pelo local diariamente. O inverno é a época mais importante para o hotel, tendo em vista que na temporada de abril a novembro de 2014 se hospedaram aproximadamente 90.822 pessoas no resort. A implantação do Enjoy Conrad na região marcou um antes e um depois no desenvolvimento do balneário. A abertura deste empreendimento fortaleceu o turismo local, que conta com turistas o ano inteiro, assim como tem influenciado diretamente na economia da região e possibilitando maiores possibilidades para as empresas que trabalham direta e indiretamente com o resort.

Juan García – “Nosso objetivo é investir pesado do hotel, além de trabalhar no fortalecimento de Punta del Este como um destino turístico de importância mundial” - Crédito da foto - Conrad
Juan García – “Nosso objetivo é investir pesado do hotel, além de trabalhar no fortalecimento de Punta del Este como um destino turístico de importância mundial” – Crédito da foto – Conrad

Ambiente de ilegalidade

Enquanto Punta del Este e outras cidades da América do Sul agradecem a presença dos jogadores brasileiros para fomentarem suas economias, os que não podem sair do País ou desejam arriscar os jogos ilegais encontram ambiente propício.  De acordo com o Instituto Jogo Legal, Organização Não Governamental que estimula estudos e pesquisas sobre jogos e loterias, a legislação de proibição não alterou o cenário de ilegalidade do jogo no Brasil. A atividade movimenta anualmente em apostas clandestinas R$ 18,9 bilhões com o jogo do bicho (R$ 12 bi), bingos (R$ 1,3 bi), caça-níqueis (R$ 3,6 bi) e apostas esportivas, i-Gaming e pôquer pela internet (R$ 2 bi), segundo estudo desenvolvido pelo BNL – Boletim de Notícias Lotéricas. Portanto, o jogo ilegal no Brasil movimenta quase o dobro que os R$ 12,1 bilhões dos jogos oficiais, se somados os R$ 11,4 bilhões das loterias da Caixa Econômica Federal, R$ 400 milhões das Loterias Estaduais e R$ 300 milhões do turfe, sem nenhuma contrapartida destes recursos para o Estado e para a sociedade. Utopicamente, de forma regulamentada, a renda dos jogos poderiam ser destinadas para investimentos na cultura, educação, promoção do destino, além de gerar milhares de empregos. Contudo, a falta de credibilidade apontada no governo, principal conferente de tais atividades, e a mentalidade da sociedade, são ainda os maiores inimigos do retorno dos jogos de cassino no Brasil — independente de quem esteja no poder.

Cassinos no Brasil

Os cassinos chegaram no Brasil junto com o Império, e eram frequentados pela alta nobreza brasileira. Foram proibidos em 1917, quando a democracia foi consolidada, e voltaram a ser praticados legalmente em 1934 após decisão do então presidente da República Getúlio Vargas. Durante os 12 anos que os jogos eram legalizados, os estabelecimentos se proliferaram, geravam empregos e fomentavam o turismo, trazendo turistas do mundo inteiro para os grandes shows que eram realizados no mesmo ambiente dos jogos.

Os hotéis eram alvos preferidos para se montar cassinos e alguns ficaram muito famosos, como o Thermas de Araxá, o Quitandinha, em Petrópolis, o do Copacabana Palace, na capital fluminense. A cidade de Santos, no litoral paulista, abrigou alguns dos principais cassinos brasileiros da época. Antes da primeira proibição, o Parque Balneário Hotel era o ponto preferido da elite paulistana e de turistas estrangeiros em meados de 1914. Já em 1933, o Hotel Balneário, cresceu e construiu fama graças ao cassino. No mesmo período, o Cassino Atlântico, no Posto 6 e o Hotel Copacabana Palace, ambos no Rio de Janeiro, atingiram o ápice,  com frequentadores não apenas da elite carioca e paulista, mas de dezenas de artistas nacionais e internacionais. Na baixada santista, o auge veio entre os anos de 1936 e 1946, quando só em Santos, existiam quatro cassinos: o Miramar; o Monte Serrat; o Atlântico Hotel e o Parque Balneário, o grande preferido da época.

No Guarujá (SP), funcionava o cassino do Grande Hotel, em São Vicente o “Cassino da Ilha Encantada”, que disputavam com os de Santos a preferência dos turistas que vinham para a cidade, e até para outros pontos do País. Estes empreendimentos não ofereciam como atrativo apenas as mesas, baralhos e roletas, mas todo um complexo de entretenimento, com salões de bailes e shows de artistas internacionais, peças teatrais e restaurantes de alta gastronomia.

O Quitandinha foi construído em 1944 para ser o maior cassino hotel da América do Sul, mas em 1964 o jogo foi proibido no Brasil - Crédito da foto - Prefeitura de Petrópolis
O Quitandinha foi construído em 1944 para ser o maior cassino hotel da América do Sul, mas em 1964 o jogo foi proibido no Brasil – Crédito da foto – Prefeitura de Petrópolis

Anos dourados

O antigo Cassino-Hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ) é o melhor exemplo do potencial desperdiçado no Brasil e que poderia ser aproveitado com a regulamentação dos jogos. A imponente construção em estilo normando foi erguida em 1944 pelo empresário mineiro Joaquim Rolla, para ser o maior cassino hotel da América do Sul, ocupando uma área de 50 mil m2. O lago tem formato do mapa do Brasil com o farol na Ilha de Marajó. Com o fim dos jogos no Brasil, o Quitandinha tentou sobreviver como um hotel de luxo, porém sem sucesso. Os apartamentos foram vendidos a terceiros e se criou o Condomínio Quitandinha. Com isto, se preservou seu interior que foi decorado por Doroth Draper, cenógrafa dos filmes famosos de Hollywood que especificou banheiros em mármore, lustres com pingentes de cristal e um sistema de iluminação que seria suficiente para iluminar uma cidade de 60.000 habitantes. Seus salões podem abrigar até 10.000 pessoas simultaneamente.

A cúpula do Salão Mauá é a maior do mundo, com 30 m de altura e 50m de diâmetro, sendo comparada a redoma da Catedral de São Pedro em Roma; o Teatro Mecanizado com três palcos giratórios tem capacidade para 2.000 pessoas. Atualmente a parte social do Quitandinha é utilizada para congressos, eventos, shows e feiras e hoje na edificação funciona a Unidade Multifuncional SESC Quitandinha e o Condomínio Quitandinha.

Regulamentação legal

Sob o argumento de reconhecimento do valor histórico-cultural e a finalidade social dos jogos de azar no Brasil, foi apresentado em 2014 um PL – Projeto de Lei, de autoria do senador Ciro Nogueira (PP-PI) que autoriza a prática de jogos de cassino no País. O texto estabelece o funcionamento de cassinos e bingos, regulariza o jogo do bicho, traz a definição dos jogos que podem ser explorados, os critérios para autorização e as regras para distribuição de prêmios e arrecadação de tributos. Até o fechamento desta reportagem, o PLS nº 186/2014 havia sido aprovado pela Comissão Especial do Desenvolvimento Nacional, relatado pelo senador Blairo Maggi (PR-MT), que apresentou substitutivo fazendo algumas alterações ao texto. Maggi acatou emenda do senador Benedito de Lira (PP-AL) para proibir que políticos possam ser donos de casas de jogos de azar. Além disso, o texto do relator inclui uma restrição: apenas pessoas jurídicas que comprovem regularidade fiscal podem explorar esse tipo de negócio..

A matéria prevê ainda o credenciamento máximo de dez casas de bingo por município e que os cassinos funcionem ligados a complexos integrados de lazer, construídos especificamente para esse fim, com hotéis e restaurantes. A ideia é associar os jogos ao turismo, de modo a potencializar os lucros e, consequentemente, a arrecadação do governo com essa atividade. O autor do projeto estima que o Estado brasileiro pode arrecadar até R$ 15 bilhões em impostos após a regulamentação dos jogos de azar.

Durante a votação, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) esboçaram receio de que a regulamentação da exploração de jogos de azar venha associada ao aumento de práticas ilícitas como prostituição e tráfico de drogas. Buarque votou contra a matéria, enquanto Hoffmann preferiu se abster. Outro embate foi sobre uma emenda do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) para que as casas de jogos ficassem restritas às regiões menos desenvolvidas do país, mas a proposta não foi acatada. O senador Antônio Anastasia (PSDB-MG) disse que “em Minas Gerais, com 853 municípios, acompanhei o drama das prefeituras ao longo dos últimos anos, com a queda da receita, e também do estado”.

Como o texto aprovado é um substitutivo, ainda precisará passar por nova votação em turno suplementar para ratificar o resultado. Em seguida, deverá ir para a Câmara dos Deputados, exceto se nove senadores apresentarem recurso para que o projeto seja apreciado também no plenário da Casa.

O PLS nº 186/2014 defende que a prática dos jogos poderia aquecer o mercado turístico brasileiro, assim como garante a existência econômica de muitos países, incluindo os vizinhos sul-americanos. Trata-se de dezenas de milhares de novos postos de trabalho e renda, diretos e indiretos, e a possibilidade de atrair investimentos, nacionais e internacionais, no potencial turístico de Estados e Municípios. Segundo o documento, dos 193 países-membros da ONU, a grande maioria (146 nações) tem bingos e cassinos legalizados enquanto o Brasil integra a lista dos países em que há a proibição, sendo 75% deles países islâmicos.

Na justificação do projeto, o autor argumenta que os jogos de azar fazem parte da cultura e sua proibição não tem sido capaz de impedir que ocorram. “A realidade evidencia que ninguém vai deixar de apostar em determinada forma de loteria porque está proibido; as apostas continuarão a ser realizadas, só que de forma clandestina, com todos os seus malefícios”.

No Brasil se fala tanto em fonte de financiamento e expansão da hotelaria brasileira, tendo em vista que o BNDES é bastante moroso e burocrático na liberação de verbas, assim como o assunto é tratado como um tabu nos bancos privados. Então, por que não se regulamenta os jogos nos hotéis e parte do que for arrecado poderia ser destinado a fundo de investimento no próprio setor? Este é o ponto de vista de um importante representante de entidade do setor hoteleiro que pediu para não ser identificado. Ele não poupa críticas à falta de vontade política de regulamentar o assunto. “Vivemos num País em que a hipocrisia impera e mesmo sabendo que bilhões de reais são perdidos na sonegação de impostos e a jogatina corre solta, o Governo Federal não faz absolutamente nada para equacionar o assunto. Talvez por que não queira arrumar concorrentes para os jogos da Caixa. Que por sinal, não são diferentes dos chamados jogos do azar dos cassinos, pois a arrecadação do Governo é de 70% e os 30% que sobram, são repartidos entre os apostadores e quem ganha um prêmio grande nunca aparece”, questiona a fonte.

Herculano Passos – “O Brasil é naturalmente belo, nosso povo é acolhedor, quando tivermos os cassinos, quem não vai querer vir pra cá?” - Crédito da foto - Jane Santin

Primeiros passos

A legalização dos cassinos no Brasil voltou a ser debatida em 2015. Quem está à frente deste assunto é o presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Turismo, o deputado federal Herculano Passos (PSD-SP), que realizou uma audiência pública na Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados no mês de novembro. Conforme o deputado, o fomento do turismo, a geração de empregos e o aumento da arrecadação de tributos são as principais vantagens da legalização dos cassinos no País. “A legalização dos cassinos gerará uma arrecadação oriunda de impostos que apenas quem joga irá pagar. Dessa forma não penalizamos toda a população com a criação de mais um imposto como a CPMF, por exemplo. A previsão é que, no primeiro ano de funcionamento, os cassinos gerem R$ 20 bilhões de arrecadação e em 10 anos isso chegue a R$ 100 bilhões”, argumenta o Deputado.

A manutenção do turista brasileiro no País e a vinda de estrangeiros para jogar aqui é outra das vantagens apontadas por Herculano. “Quando você vai para o Uruguai ou Las Vegas, o que mais vê são brasileiro jogando. Então, todo esse dinheiro que eles estão gastando lá com passagem, hospedagem, alimentação, shows, etc, poderia estar sendo gasto aqui”, destaca o parlamentar. “Além disso, o Brasil é naturalmente belo, nosso povo é acolhedor, quando tivermos os cassinos, quem não vai querer vir pra cá?”, argumentou.

Daniel Guijarro, Presidente da Resorts Brasil
Daniel Guijarro, Presidente da Resorts Brasil

O presidente da Associação Brasileira de Resorts, Luiz Daniel Guijarro, disse que a legalização dos cassinos permitiria um aumento das taxas de ocupação dos resorts no País e dobraria o faturamento do setor. Segundo ele, mesmo com a crise, em 2015 o segmento de resorts deverá fechar com R$ 1,8 bilhão de receita, quase R$ 100 milhões a mais do que no ano passado. As projeções feitas, caso os cassinos sejam legalizados, apontam que a receita seria de R$ 2,16 bilhões. “Há um espaço para crescimento, se a gente considera a probabilidade de ter cassinos, já que, com esse segmento, vamos dar um salto de ocupação. É um segmento que traz uma linearidade, diferente do lazer e de eventos corporativos que são sazonais”, disse Guijarro.

Alexandre Sampaio, Presidente da FBHA
Alexandre Sampaio, Presidente da FBHA

Potencial econômico

O presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação, Alexandre Sampaio, reiterou que o jogo ilegal no Brasil movimenta R$ 18 bilhões e com isso, o País tem um potencial em várias cidades do interior e será benéfico para a economia se os cassinos forem legalizados. “Só com os cassinos, o setor de turismo teria mais 400 mil postos de trabalho e ganharia mais investimentos internacionais”, prevê Sampaio ao defender a possibilidade de cassinos nas capitais, mas ressaltando que o foco seja a interiorização dos empreendimentos.

Para o presidente da Confederação Brasileira de Convention & Visitors Bureaux, Márcio Santiago, o Ministério do Turismo deveria ser responsável pela regulação, fiscalização e arrecadação dos impostos relacionados aos cassinos. “O Brasil é o 4º país que joga nos cassinos de Las Vegas. Nós saímos daqui para jogar lá fora. São divisas que o Brasil deixa de receber”, lamentou.

Desenvolvimento dos municípios

O vice-presidente Institucional da Associação Nacional dos Secretários e Dirigentes Municipais de Turismo, Tenielson Campos, afirmou que a legalização dos cassinos no Brasil é uma saída para levar o desenvolvimento onde não existe o turismo e que não se restrinja apenas aos resorts. “O cliente chega do aeroporto, vai direto para o resort e faz tudo ali. Isso não pode ficar só lá dentro, é preciso gerar oportunidade para o empreendedor local”, defendeu.

O assessor da presidência do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), Walter Ferreira, acredita que os cassinos no Brasil poderão ser um atrativo para o país perante os demais países quando não houver mais os grandes eventos em pauta. “É preciso se preocupar com a imagem do Brasil no exterior quando não tivermos mais a mídia espontânea (como a Copa e as Olimpíadas). Olhando experiências internacionais, essa pode ser uma fonte de recurso para a promoção internacional permanente. A Embratur precisa de recursos perenes para bancar essa promoção no exterior”, salientou.

Para Ferreira, todas as formas que buscam desenvolver o turismo no Brasil interessam ao governo. “Nosso País fideliza: 78% das pessoas que nos visitam voltam. Com o fim dos grandes eventos, essas podem ser as novas saídas.” As sugestões levantadas na audiência pública foram encaminhadas para a Comissão Especial do Marco Regulatório dos Jogos no Brasil, que analisa a liberação de outros jogos de azar como bingos e jogo do bicho.

Audiência pública à favor da volta dos jogos de cassino no Brasil ocorreu em novembro de 2015 - Crédito da foto - Cláudio Araujo
Audiência pública à favor da volta dos jogos de cassino no Brasil ocorreu em novembro de 2015 – Crédito da foto – Cláudio Araujo

Defesa sindical

Sob o argumento da volta dos cassinos no Brasil ser uma das saídas para a crise econômica no país, com déficit de 0,9% do PIB projetado no Orçamento da União em 2016, a CONTRATUH – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade também defende a volta da legalização do jogo no Brasil. “O jogo é uma possibilidade de arrecadação para o governo que não onera o trabalhador, capacita funcionários e atrai investimentos em infraestrutura e crescimento para regiões turísticas”, afirma Moacyr Roberto Tesch Auersvald, presidente da Confederação. Somente casas de bingo empregavam cerca de 320 mil trabalhadores diretos e indiretos antes da proibição para funcionarem. “Essa também pode ser uma das alternativas à polêmica volta da CPMF – Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira”, explica o sindicalista. Para ele, a crise precisa de soluções imediatas e de impacto positivo, pois afeta não só a qualidade de vida da população, mas os serviços em geral e as negociações trabalhistas. “O aumento do desemprego deixa o trabalhador vulnerável, com menos força para negociar seus direitos e correções salariais”, argumenta Moacyr.

Moacyr Roberto – “O jogo é uma possibilidade de arrecadação para o governo que não onera o trabalhador, capacita funcionários e atrai investimentos em infraestrutura e crescimento para regiões turísticas” - Crédito da foto para Fernando Cavalcanti
Moacyr Roberto – “O jogo é uma possibilidade de arrecadação para o governo que não onera o trabalhador, capacita funcionários e atrai investimentos em infraestrutura e crescimento para regiões turísticas” – Crédito da foto para Fernando Cavalcanti

Diversão gratuita para toda família

Enquanto a discussão da legalização dos cassinos nos hotéis no Brasil se arrasta, alguns empreendimentos promovem regularmente a diversão dos hóspedes, principalmente nas férias, como se eles estivessem em Las Vegas com direito a mesas profissionais de pôquer, black jack, roleta, etc. Este é o caso do resort Costão do Santinho, em Florianópolis (SC) e dos hotéis paulistas, Sofitel Jequitimar Guarujá, Grande Hotel Campos do Jordão e o Bourbon Atibaia Convention & Spa Resort. E os resultados animadores atraem e fidelizam os hóspedes, que se divertem sem desembolsar absolutamente nada para jogar ou aprender, contando com o apoio de empresas especializadas.  Um dos jogos mais praticados é o pôquer, que é um esporte e não um jogo de azar, já que desde 2010 está integrado à Associação Internacional dos Esportes de Mente, ficando na mesma categoria do xadrez e do jogo de damas. O pôquer é um jogo de combinação de cartas: as duas que os jogadores recebem com as cinco que são abertas na mesa. A cada rodada, é possível apostar ou desistir. Quem fizer a melhor sequência, em tese, tem mais chance de ganhar as fichas. São essas as simples regras do pôquer, que se tornou, nos últimos anos, um dos principais jogos de inteligência praticados no Brasil e no mundo.

Vinicio Bin – “Em determinados polos hoteleiros, seria muito benéfico ao turismo e a distribuição de renda interna, se houvessem locais que pudessem explorar os jogos no Brasil” - Crédito da foto - InterCity
Vinicio Bin – “Em determinados polos hoteleiros, seria muito benéfico ao turismo e a distribuição de renda interna, se houvessem locais que pudessem explorar os jogos no Brasil” – Crédito da foto – InterCity

De olho nesta tendência, o Intercity Premium Caxias do Sul, hotel situado na cidade homônima da Serra Gaúcha, abriga o Poker City, um espaço de 320 m², localizado no sétimo andar do empreendimento. O local contempla cinco mesas de jogo – com capacidade para atender ao mesmo tempo 60 jogadores –, sala de estar com lareira, além de bar e bistrô, que serão administrados pelo próprio hotel, por meio do maître Marcelo Oliveira e do chef de cozinha Guilherme Quintian. O Poker City é aberto também aos hóspedes e funciona de segunda a sexta-feira, a partir das 18h00, e aos sábados, domingos e feriados, a partir das 14h00.

Para Vinicio Bin, Gerente Geral do hotel Intercity Premium Caxias do Sul, a prática de jogo de pôquer é uma novidade, principalmente no mundo hoteleiro. “Existem torneios que ocorrem há mais tempo em hotéis do Brasil, mas ainda é muito revestido de preconceito e dúvidas acerca da prática. É fato que a prática deste esporte da mente, reconhecido pelo Ministério do Esporte e ligado à Federação de Xadrez, vem cada vez mais ocupando espaço no cenário brasileiro e conta com mais adeptos a cada dia. A hotelaria não pode ficar de fora dessa tendência que se traduz num novo tipo de negócio e oportunidades em âmbitos turísticos”, afirma o gerente.

Segundo Vinicio, os hotéis tem cada vez mais se preocupado em oportunizar experiências novas e únicas para seus hóspedes e o pôquer é uma forma de proporcionar aos hóspedes e ao público em geral uma forma de entretenimento. Quando esse entretenimento ocorre no ambiente do hotel, soma-se a todas as outras facilidades e conforto que ele busca, sem precisar se deslocar. “Acredito que o jogo é uma prática antiga, mas que sofre resistências no Brasil e carece de uma regulamentação adequada, para que possa proporcionar os devidos benefícios à população como ocorre em outros países. Acredito que o Brasil teria muito a ganhar com uma legislação adequada. Em determinados polos hoteleiros, seria muito benéfico ao turismo e a distribuição de renda interna, se houvessem locais que pudessem explorar jogos no Brasil. Não faz sentido que o brasileiro tenha que sair do país que vive para poder jogar em outro país porque considera a prática de jogos ilegal”, opina o gerente. De acordo com Vinicio, deveriam haver formas de combater que as pessoas percam verdadeiras fortunas nesses cassinos e caiam em ruína. “Certamente, temos muito que avançar na discussão desse assunto que acredito que há muita polêmica e opiniões contrárias no país. Mas a proibição cria mercados ilegais mais danosos à sociedade do que a liberação regulamentada”, aponta o gerente.

O Intercity Premium Caxias do Sul (RS) conta com o Poker City, um espaço de 320 m², localizado no sétimo andar do empreendimento - Crédito da foto - Hotéis InterCity
O Intercity Premium Caxias do Sul (RS) conta com o Poker City, um espaço de 320 m², localizado no sétimo andar do empreendimento – Crédito da foto – Hotéis InterCity

O hotel locou um espaço do hotel para a prática de torneios de pôquer, que são permitidos no Brasil. A operação desse tipo de atividade requer dedicação especial e diferenciada. Contudo, o hotel não vê como possa operar esse nicho de mercado. Na opinião do gerente geral do Intercity, talvez um hotel projetado com essa proposta possa ousar em operar um clube de pôquer, mas na modelagem dos hotéis atuais, voltados a negócios ou ao turismo de lazer, é incompatível a operação pelo próprio hotel. O Poker City é uma empresa que locou uma área do hotel, administrado pelo empresário Julio Trindade, e que já carrega a experiência de uma operação no hotel Majestic de Florianópolis (SC). O clube realiza torneios de pôquer na modalidade única e exclusiva Texas hold.  O clube está aberto ao público por meio de inscrições nos torneios de curta duração e com número limitado de inscrições. Nesse sentido, todos que dominam e conhecem esse jogo tem condições de participar desses torneios.

De toda forma, o Intercity Premium não visa competir com outros hotéis da América Latina que dispõem de cassinos propriamente ditos. Na realidade, o Poker City é uma operação totalmente distinta de um cassino. O gerente explica que o Clube tem uma proposta de entretenimento unicamente na prática de torneios de pôquer, que não pode ser confundido com Cassino, que tem outra conotação, principalmente no Brasil. “A proposta do hotel com a locação desse espaço para a prática desse jogo se dá muito mais buscando o lazer do hóspede como uma forma de aumentar o faturamento. Inegavelmente, quando pensamos em proporcionar atratividade ao hotel, a expectativa de aumento de ocupação e receita vem atrelada ao conceito e esperamos poder proporcionar a melhor experiência possível a nossos hóspedes e clientes. Para que possamos surpreendê-los, precisamos ousar nas operações hoteleiras, saindo do convencional. As pessoas buscam cada vez mais novas experiências e sensações positivas em suas viagens. Os hotéis precisam fazer parte desse circuito e proporcionar aos seus hóspedes experiências que possam ir além de suas expectativas. Não cabe mais em nosso mercado fazer mais do mesmo. É necessário ir além e buscar em outros mercados práticas inovadoras e que gerem resultados positivos”, conclui Vinicio.

Outro empreendimento que apostou numa estratégia comercial com a temática de jogos de cassino é o Paradise Golf & Lake Resort. O resort localizado em Mogi das Cruzes (SP)  já promoveu uma série de ações para atrair, fidelizar e divertir os hóspedes. “Debatemos uma série de ações e resolvemos nos inspirar 100% na cidade de Las Vegas que é sinônimo de entretenimento. Mesmo com jogos de cassinos sem apostas, nossa ação teve uma programação contando com casamento em capela e até show com Elvis Cover. Temos trabalhado para buscar formas inovadoras e diferenciadas de entretenimento para atender nossos hóspedes”, destacou Ricardo Aly, Diretor Comercial do Paradise Golf & Lake Resort.

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1 COMENTÁRIO

  1. o debate nesse caso deveria estar baseado nas regras do jogo ,nao ha cabida na conversa se o bom o e ruim para o pais,esta mais que claro que tem todo de bom..emprego,aumento do turismo e dos serviços agregados a ele,novos investidores estrangeiros,novos hoteis ,etc….o fato que governo tenha o controle das loterias caixa e nao tenha o controle do jogo do bicho,nao iria afetar seus negocios,ja que
    o turista com perfil de jogador em jogos de azar nao se interessa por jogos de loteria manipulados.
    nao da para entender por que tanta demora para abolir uma lei ridicula de mediados do seculo XX.

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